Cirurgia ortopédica em cães: como evitar complicações no pós-operatório
- Felipe Garofallo

- 7 de jun.
- 5 min de leitura
A recuperação de uma cirurgia ortopédica em cães exige muito mais do que um procedimento tecnicamente bem executado.

Embora a cirurgia seja uma etapa essencial no tratamento de problemas como ruptura do ligamento cruzado cranial, luxação de patela, fraturas, displasia coxofemoral e hérnias de disco com instabilidade vertebral, o sucesso a longo prazo depende diretamente dos cuidados realizados no pós-operatório.
Muitas complicações que levam à dor persistente, atraso na consolidação óssea, falhas de implantes, infecções e necessidade de novas cirurgias poderiam ser evitadas com um manejo adequado durante as semanas seguintes ao procedimento.
O primeiro ponto fundamental para evitar complicações após uma cirurgia ortopédica em cães é compreender que o paciente operado precisa de repouso controlado, e não apenas “ficar quieto”.
Um dos erros mais comuns cometidos pelos tutores é acreditar que, ao observar melhora da dor e do apoio do membro, o animal já está recuperado.
Muitos cães apresentam melhora clínica precoce devido ao controle inflamatório e analgésico, mas isso não significa que os tecidos internos estejam completamente cicatrizados.
Em procedimentos como TPLO, correção de luxação de patela ou osteossíntese de fraturas, o osso ainda está passando por remodelação e consolidação durante semanas ou até meses.
Saltos, corridas, brincadeiras intensas e o acesso a sofás, camas ou escadas podem gerar micromovimentos excessivos no local operado, favorecendo soltura de implantes, quebra de parafusos, falha da estabilização ou atraso na cicatrização.
Por isso, o confinamento controlado é uma das medidas mais importantes no pós-operatório ortopédico.
O ideal é que o cão permaneça em um ambiente pequeno, seguro e sem estímulos excessivos, principalmente nas primeiras semanas. Em muitos casos, recomenda-se o uso de cercados, canis internos ou limitação do espaço da casa para reduzir deslocamentos desnecessários.
Passeios devem ocorrer apenas quando autorizados pelo médico-veterinário e geralmente começam de forma curta, utilizando guia curta e em ritmo controlado. Mesmo cães ativos ou de grande porte precisam respeitar esse período, pois o excesso de atividade física é uma das principais causas de complicações cirúrgicas.
Outro aspecto extremamente importante é o controle rigoroso da dor. Muitos tutores acreditam que, se o animal parece confortável, os medicamentos podem ser interrompidos antes do tempo recomendado.
Entretanto, a dor mal controlada pode gerar diversas consequências negativas, incluindo redução da movimentação fisiológica, maior inflamação, dificuldade de apoio do membro e aumento do estresse fisiológico. Além disso, cães com dor podem desenvolver compensações musculares inadequadas, sobrecarregando outros membros e articulações.
Em pacientes ortopédicos, especialmente idosos ou obesos, essa compensação pode inclusive predispor ao desenvolvimento de novas lesões, como ruptura do ligamento cruzado no membro contralateral.
A administração correta dos medicamentos prescritos é indispensável para evitar complicações infecciosas e inflamatórias.
Antibióticos, quando indicados, devem ser utilizados exatamente conforme orientação veterinária, respeitando horários e tempo total de tratamento.
Interromper antibióticos precocemente ou administrar doses incorretas pode favorecer resistência bacteriana e aumentar o risco de infecções profundas, uma das complicações mais desafiadoras em ortopedia veterinária.
Da mesma forma, anti-inflamatórios e analgésicos devem ser utilizados com responsabilidade, pois o uso inadequado ou associação sem orientação pode resultar em efeitos adversos gastrointestinais, hepáticos ou renais.
O cuidado com a ferida cirúrgica também merece atenção especial. O tutor deve monitorar diariamente o local da cirurgia para observar sinais como vermelhidão excessiva, edema importante, secreção, abertura dos pontos, sangramento ou mau odor.
Pequeno edema e discreto hematoma podem ocorrer em alguns casos, especialmente nos primeiros dias, mas alterações progressivas devem ser avaliadas rapidamente pelo veterinário responsável.
Um dos maiores inimigos do pós-operatório é a lambedura da ferida cirúrgica. A saliva contém bactérias e a manipulação constante dos pontos pode levar à deiscência de sutura, infecção e até exposição de implantes.
Por esse motivo, o uso do colar elizabetano ou roupas cirúrgicas apropriadas costuma ser indispensável, mesmo quando o cão aparenta não se incomodar com a região operada.
A nutrição adequada também desempenha papel decisivo no processo de recuperação.
O organismo precisa de proteínas de boa qualidade, vitaminas, minerais e energia suficiente para realizar a reparação tecidual e óssea. Dietas inadequadas ou desequilibradas podem retardar a cicatrização e comprometer a resposta imunológica. Além disso, o controle do peso corporal é extremamente importante.
O excesso de peso aumenta significativamente a sobrecarga mecânica sobre articulações, ossos e implantes ortopédicos, favorecendo dor persistente e falhas cirúrgicas. Em cães obesos, pequenas reduções de peso já podem produzir impacto positivo importante na recuperação funcional.
A fisioterapia veterinária vem se consolidando como uma das estratégias mais eficazes para reduzir complicações e melhorar os resultados após cirurgia ortopédica.
Dependendo do caso, técnicas como laserterapia, eletroestimulação, hidroterapia, exercícios proprioceptivos, mobilização articular e fortalecimento muscular ajudam a restaurar movimento, reduzir dor e minimizar atrofia muscular.
Um erro relativamente frequente é esperar o cão “voltar ao normal sozinho”. Embora alguns pacientes tenham boa recuperação espontânea, muitos apresentam déficits musculares e biomecânicos persistentes quando não realizam reabilitação adequada.
O acompanhamento fisioterápico individualizado pode reduzir o tempo de recuperação e diminuir significativamente riscos de claudicação crônica.
Outro fator frequentemente negligenciado é o acompanhamento radiográfico pós-operatório. Muitos tutores deixam de retornar às reavaliações quando percebem melhora clínica, mas exames de imagem são essenciais para confirmar alinhamento ósseo, consolidação adequada e estabilidade dos implantes.
Em alguns casos, complicações iniciais podem não apresentar sinais clínicos evidentes, sendo detectadas apenas em radiografias de controle. Identificar alterações precocemente aumenta muito as chances de correção antes que o problema evolua para situações mais graves ou irreversíveis.
Também é importante compreender que cada cirurgia ortopédica possui um protocolo específico de recuperação. Um paciente submetido à correção de luxação de patela pode ter recomendações diferentes de um cão operado de TPLO, artrodese ou osteossíntese complexa.
A individualização do pós-operatório leva em consideração fatores como idade, raça, peso, nível de atividade, condição muscular, presença de doenças associadas e até o temperamento do animal. Por isso, comparações com relatos de outros tutores ou informações encontradas genericamente na internet podem gerar erros de manejo importantes.
A observação diária do comportamento do cão também pode ajudar na identificação precoce de complicações. Alterações como perda de apetite, apatia, vocalização, dificuldade repentina de apoio do membro, febre, tremores, aumento de dor ou piora súbita da claudicação nunca devem ser ignoradas.
Muitas vezes, uma intervenção precoce impede que uma pequena alteração evolua para falha mecânica importante ou infecção profunda. O tutor não precisa esperar a consulta de retorno para entrar em contato com a equipe veterinária quando perceber algo incomum.
Em última análise, evitar complicações após uma cirurgia ortopédica em cães depende de uma combinação entre técnica cirúrgica adequada, comunicação eficiente entre médico-veterinário e tutor, adesão rigorosa às orientações pós-operatórias e acompanhamento próximo durante todo o processo de recuperação.
A cirurgia é apenas o começo da jornada. O comprometimento com repouso controlado, medicações, alimentação equilibrada, fisioterapia e reavaliações periódicas faz grande diferença nos resultados finais, permitindo que o animal recupere mobilidade, conforto e qualidade de vida com segurança e menor risco de recidivas ou novas intervenções.
Referências bibliográficas
Small Animal Surgery. Fossum, T. W. Small Animal Surgery. 4th ed. St. Louis: Mosby Elsevier, 2013.
Veterinary Surgery: Small Animal. Tobias, K. M.; Johnston, S. A. Veterinary Surgery: Small Animal. 2nd ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.