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Como a displasia coxofemoral evolui ao longo da vida do cão

A displasia coxofemoral é uma doença ortopédica de caráter progressivo que acompanha muitos cães ao longo de toda a vida, embora nem sempre se manifeste de forma evidente desde cedo.


Trata-se de uma alteração no desenvolvimento da articulação do quadril, na qual a cabeça do fêmur e o acetábulo não se encaixam de maneira adequada.



Esse desajuste inicial, muitas vezes sutil, desencadeia uma sequência de eventos biomecânicos e inflamatórios que explicam a evolução da doença ao longo dos anos.


Nos primeiros meses de vida, especialmente durante a fase de crescimento acelerado, a articulação ainda é predominantemente cartilaginosa e altamente moldável.


É nesse período que fatores genéticos exercem seu maior peso, mas o ambiente também tem papel importante. Alimentação excessiva, ganho de peso rápido, exercícios inadequados e pisos escorregadios podem intensificar a frouxidão articular.


Curiosamente, muitos filhotes com displasia não demonstram dor evidente nessa fase. Quando os sinais aparecem, costumam ser discretos, como dificuldade para levantar, menor disposição para brincar ou uma marcha estranha após exercícios mais intensos.


Em alguns casos, há dor significativa, especialmente quando ocorre inflamação da cápsula articular, mas isso não é uma regra.


À medida que o cão cresce e atinge a maturidade esquelética, a instabilidade articular passa a gerar microtraumas repetitivos na cartilagem. O organismo tenta compensar essa instabilidade por meio de alterações estruturais, como o espessamento da cápsula articular e a formação de osteófitos.


Esse processo marca o início da doença articular degenerativa, também conhecida como osteoartrose. Nessa fase, muitos cães entram em um período aparentemente estável, no qual os sinais clínicos podem diminuir ou até desaparecer temporariamente. Esse “silêncio clínico” é enganoso, pois as alterações articulares continuam progredindo de forma lenta e contínua.


Na vida adulta, a evolução da displasia coxofemoral se torna mais evidente do ponto de vista clínico. A cartilagem articular já se encontra comprometida, a congruência da articulação é cada vez menor e a inflamação passa a ser crônica.


O cão pode apresentar claudicação intermitente, rigidez ao acordar, dificuldade para subir escadas ou entrar no carro, além de intolerância ao exercício. A dor, nesse estágio, não está apenas relacionada ao movimento articular, mas também às alterações musculares secundárias, como atrofia de musculatura pélvica e sobrecarga de estruturas adjacentes.


Com o avançar da idade, especialmente em cães idosos, a displasia costuma atingir seu estágio mais avançado. A articulação do quadril pode apresentar deformações severas, perda significativa de cartilagem e intensa remodelação óssea. Nessa fase, a dor tende a ser mais constante, impactando diretamente a qualidade de vida do animal.


Muitos cães passam a reduzir drasticamente sua atividade física, o que favorece o ganho de peso e cria um ciclo negativo de sobrecarga articular e agravamento dos sinais clínicos. Ainda assim, a intensidade dos sintomas varia bastante entre os indivíduos.


Há cães com alterações radiográficas importantes que convivem relativamente bem com a doença, enquanto outros, com lesões menos evidentes, apresentam dor significativa.


Ao longo de toda essa trajetória, é importante entender que a displasia coxofemoral não evolui de forma idêntica em todos os cães. A genética, o manejo ao longo da vida, o controle de peso, o tipo de atividade física e a intervenção terapêutica precoce influenciam diretamente o ritmo e a gravidade da progressão.


Por isso, a doença deve ser encarada como uma condição dinâmica, que exige acompanhamento contínuo e individualizado. Quanto mais cedo se compreende essa evolução, maiores são as chances de oferecer ao cão conforto, mobilidade e qualidade de vida em todas as fases da sua existência.

Referências bibliográficas

  1. Johnston, S. A. (1997). Osteoarthritis. Joint anatomy, physiology, and pathobiology. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, 27(4), 699–723.

  2. Smith, G. K., Paster, E. R., Powers, M. Y., Lawler, D. F., Biery, D. N., Shofer, F. S., & McKelvie, P. J. (1998). Lifelong diet restriction and radiographic evidence of osteoarthritis of the hip joint in dogs. Journal of the American Veterinary Medical Association, 212(4), 533–538.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


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