Cinco queixas mais comuns em cães com displasia coxofemoral
- Felipe Garofallo

- 19 de jan.
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Atualizado: 22 de jan.
A displasia coxofemoral em cães costuma chegar ao consultório muito mais pelas queixas dos responsáveis do que por um diagnóstico prévio claro.

Em geral, o responsável pelo cão percebe que “algo mudou” no comportamento ou na movimentação do animal e passa a relatar sinais que, isoladamente, podem parecer inespecíficos, mas que juntos formam um quadro bastante característico dessa afecção ortopédica.
A primeira queixa mais comum é a dificuldade progressiva para se levantar, subir escadas ou entrar no carro. Muitos responsáveis descrevem que o cão demora mais para sair da posição deitado, evita saltos que antes fazia com facilidade ou precisa de ajuda para subir degraus.
Essa limitação funcional está diretamente relacionada à instabilidade da articulação coxofemoral e à dor gerada pelo mau encaixe entre a cabeça do fêmur e o acetábulo, que tende a se agravar com o tempo.
Outra queixa frequente é a claudicação intermitente dos membros posteriores, especialmente após exercícios ou períodos de maior atividade. Diferentemente de lesões agudas, o responsável relata que o cão “manca de vez em quando”, melhora espontaneamente e volta a mancar dias depois.
Esse padrão flutuante confunde muitos responsáveis, que acreditam se tratar apenas de cansaço ou envelhecimento natural. Na displasia coxofemoral, essa oscilação ocorre porque o grau de inflamação articular e a sobrecarga muscular variam conforme o nível de atividade física, o peso corporal e até o clima, já que alguns responsáveis percebem piora em dias mais frios.
Uma terceira queixa bastante relatada é a redução da disposição para brincar ou caminhar, acompanhada de mudanças comportamentais sutis.
Responsáveis frequentemente comentam que o cão passou a preferir ficar mais deitado, evita interações mais intensas ou demonstra irritação ao ser manipulado na região dos quadris.
Em alguns casos, o animal deixa de acompanhar os passeios longos e começa a sentar ou deitar durante a caminhada. Essa diminuição da atividade não deve ser interpretada apenas como preguiça ou idade avançada, pois está fortemente associada à dor crônica e à tentativa do cão de evitar movimentos que geram desconforto.
Outra queixa comum envolve a alteração da marcha, muitas vezes descrita como um “andar rebolado” ou “corrida de coelho”, especialmente em cães jovens. Responsáveis observam que, ao correr, o animal movimenta os dois membros posteriores ao mesmo tempo, em vez de alterná-los.
Esse padrão de locomoção é uma adaptação biomecânica para reduzir a instabilidade e a dor na articulação do quadril. Em filhotes e cães jovens, essa queixa costuma gerar surpresa e preocupação, já que o animal ainda não apresenta sinais evidentes de envelhecimento, mas demonstra dificuldade clara de locomoção.
Por fim, uma queixa extremamente relevante, embora muitas vezes subestimada, é o ganho de peso associado à perda de massa muscular nos membros posteriores.
Responsáveis relatam que o cão engordou mesmo sem aumento significativo da alimentação, ao mesmo tempo em que as pernas traseiras parecem mais finas.
Esse quadro ocorre porque a dor leva à redução da atividade física, favorecendo o acúmulo de gordura, enquanto a falta de uso adequado dos músculos posteriores resulta em atrofia muscular. Essa combinação agrava ainda mais a displasia, criando um ciclo de sobrecarga articular, dor e limitação funcional progressiva.
Compreender essas queixas sob a ótica do responsável é essencial para um diagnóstico precoce e para a escolha da melhor estratégia terapêutica, seja ela conservadora ou cirúrgica.
A displasia coxofemoral não se manifesta apenas como um problema ortopédico isolado, mas como uma condição que impacta diretamente a qualidade de vida do cão e a rotina familiar, tornando fundamental uma abordagem clara, empática e baseada em evidências científicas.
Referências bibliográficas
Fossum, T. W. Small Animal Surgery. Elsevier, 5ª edição.
Todhunter, R. J.; Lust, G. Canine Hip Dysplasia. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.