Cachorros pequenos também precisam operar o ligamento cruzado?
Quando se fala em ruptura do ligamento cruzado cranial em cães, muitas pessoas associam o problema imediatamente aos cães de médio e grande porte, sem considerar que cachorros pequenos precisam operar o ligamento cruzado. De fato, a doença é muito conhecida em raças maiores, mas isso não significa que cães pequenos estejam protegidos.

Cachorros pequenos também podem romper o ligamento cruzado e, em alguns casos, podem precisar de tratamento cirúrgico.
Durante muito tempo, o peso do animal teve grande influência na decisão entre tratamento conservador e cirurgia. Era relativamente comum considerar que cães pequenos, especialmente aqueles abaixo de 10 ou 15 kg, poderiam ser tratados sem cirurgia com maior facilidade.
Essa ideia não surgiu sem fundamento: existem relatos de bons resultados com tratamento conservador em cães pequenos. Entretanto, a literatura mais recente mostra que a questão é mais complexa e que ainda não existe evidência suficiente para estabelecer uma única conduta ideal para todos os cães de pequeno porte. (PubMed)
Para entender essa discussão, primeiro precisamos compreender o que acontece quando o ligamento cruzado cranial perde sua função.
O ligamento cruzado cranial é uma das principais estruturas responsáveis pela estabilidade do joelho. Ele participa do controle do deslocamento da tíbia em relação ao fêmur e também limita determinados movimentos de rotação e hiperextensão. Quando ocorre sua ruptura, seja ela parcial ou completa, a biomecânica da articulação é modificada.
Essa alteração pode provocar dor, inflamação, claudicação e dificuldade para apoiar o membro. Com o passar do tempo, uma articulação que permanece instável também pode desenvolver alterações degenerativas relacionadas à osteoartrose.
O fato de um cachorro pesar 5 kg em vez de 30 kg não significa, portanto, que seu joelho deixe de apresentar instabilidade quando o ligamento cruzado perde sua função.
O que muda é que o peso corporal é apenas um dos fatores envolvidos na quantidade de carga aplicada sobre a articulação e na repercussão clínica dessa instabilidade.
Por isso, ser um cachorro pequeno, isoladamente, não é motivo suficiente para afirmar que ele não precisa de cirurgia.
Existem cães pequenos com ruptura do ligamento cruzado que apresentam claudicação discreta e conseguem evoluir satisfatoriamente com tratamento conservador. Por outro lado, também existem pacientes pequenos que permanecem com dor, claudicação e instabilidade, mesmo após períodos de repouso e tratamento clínico.
A decisão precisa considerar o paciente como um todo. Um Chihuahua de 3 kg pouco ativo e com uma ruptura parcial pode apresentar uma situação completamente diferente daquela encontrada em um Jack Russell Terrier de 7 kg extremamente ativo com ruptura completa e instabilidade evidente. Da mesma maneira, dois cães exatamente do mesmo peso podem apresentar graus muito diferentes de comprometimento do joelho.
A intensidade da claudicação, o grau de instabilidade articular, o tempo de evolução, a condição corporal, o nível de atividade, a presença de ruptura parcial ou completa, a existência de outras alterações ortopédicas e a resposta ao tratamento inicial são algumas das informações que precisam ser consideradas.
Um aspecto particularmente importante nos cães pequenos é a luxação medial de patela.
Essa alteração é muito frequente em diversas raças de pequeno porte e pode coexistir com a doença do ligamento cruzado cranial.
Em determinados pacientes, portanto, não existe apenas uma ruptura ligamentar isolada: o joelho pode apresentar alterações biomecânicas associadas que precisam ser consideradas no planejamento do tratamento. Um estudo recente com cães abaixo de 10 kg avaliou inclusive pacientes com ruptura do ligamento cruzado associada ou não à luxação medial de patela. (PubMed Central (PMC))
Outro ponto interessante é que a anatomia dos cães pequenos não é simplesmente uma versão reduzida da anatomia encontrada nos cães grandes.
Uma revisão especificamente dedicada à ruptura do ligamento cruzado em cães abaixo de 15 kg descreveu algumas particularidades na morfologia da tíbia proximal desses animais. Entre elas está uma tendência a apresentar ângulos do platô tibial relativamente elevados. Essas características anatômicas podem influenciar a biomecânica do joelho e também precisam ser consideradas na escolha do tratamento. (PubMed)
Quando optamos pelo tratamento conservador, isso também não significa simplesmente esperar para ver se o cachorro melhora.
Um tratamento não cirúrgico adequadamente conduzido pode envolver controle da atividade física, manejo da dor e da inflamação quando necessário, controle do peso corporal e reabilitação. O objetivo é melhorar o conforto, preservar massa muscular e favorecer a função do membro.
Cães pequenos podem responder bem a essa abordagem em determinadas situações. Historicamente, esse é justamente um dos motivos pelos quais o tratamento conservador se tornou mais aceito nesses pacientes.
Entretanto, a recuperação pode ser relativamente demorada. Uma revisão da literatura sobre cães abaixo de 15 kg observou que as evidências disponíveis sobre tratamento conservador são limitadas e que o tempo médio de recuperação descrito em um dos estudos históricos foi de aproximadamente quatro meses.
Os próprios autores destacam que ainda faltam evidências de alta qualidade para determinar qual é a melhor abordagem para cães pequenos. (PubMed)
Um estudo publicado em 2024 trouxe informações interessantes sobre essa discussão. Foram avaliados cães de pequeno porte, com menos de 10 kg, submetidos à TPLO ou ao tratamento não cirúrgico, ambos acompanhados por um protocolo de reabilitação.
No curto prazo, os dois grupos apresentaram melhora clínica, sem diferenças estatisticamente significativas em várias das medidas avaliadas. Entretanto, o grupo submetido à TPLO apresentou aumento significativo da circunferência muscular da coxa, enquanto isso não ocorreu no grupo tratado sem cirurgia.
É importante observar que o estudo envolveu somente 18 joelhos, portanto seus resultados não permitem concluir que todos os cães pequenos devam ou não devam ser operados. (PubMed Central (PMC)
Esse é um ótimo exemplo de por que não devemos transformar o peso corporal em uma regra absoluta.
Quando a cirurgia é indicada, também existem diferentes possibilidades de tratamento.
Uma delas é a estabilização extracapsular, frequentemente conhecida como sutura extracapsular ou fabelotibial. Nessa técnica, utiliza-se um material de sutura posicionado externamente à articulação com o objetivo de proporcionar estabilidade ao joelho enquanto ocorre formação de fibrose periarticular.
Historicamente, essa técnica foi muito utilizada em cães pequenos e continua sendo uma possibilidade em casos selecionados.
Entretanto, atualmente também são realizadas osteotomias corretivas em cães pequenos, incluindo a TPLO, ou osteotomia de nivelamento do platô tibial.
Na TPLO, o objetivo não é simplesmente substituir o ligamento rompido. A técnica modifica a biomecânica do joelho por meio de uma osteotomia da tíbia proximal e rotação do platô tibial, seguida de estabilização óssea com implantes.
Com isso, procura-se reduzir a instabilidade funcional relacionada à ausência do ligamento cruzado cranial durante o apoio.
Embora algumas pessoas ainda associem a TPLO exclusivamente aos cães grandes, a técnica também pode ser realizada em cães pequenos.
Estudos publicados especificamente nessa população descrevem resultados favoráveis, e a revisão dedicada aos cães abaixo de 15 kg relata bons resultados subjetivos e baixas taxas de complicações maiores para TPLO nos trabalhos disponíveis, embora ressalte que a quantidade e a qualidade das evidências ainda são limitadas. (PubMed)
Isso não significa que todo Yorkshire, Maltês, Spitz, Shih-tzu, Chihuahua ou Poodle com ruptura do ligamento cruzado precise fazer uma TPLO. Também não significa que todo cachorro abaixo de 10 kg deva ser tratado conservadoramente.
A indicação deve surgir da avaliação daquele joelho e daquele paciente.
Um cachorro pequeno que apresenta claudicação persistente, instabilidade importante, dificuldade para realizar suas atividades habituais ou alterações ortopédicas associadas pode se beneficiar do tratamento cirúrgico.
Por outro lado, determinados pacientes podem ser candidatos ao tratamento conservador, principalmente quando apresentam manifestações clínicas mais discretas ou quando outros fatores individuais favorecem essa abordagem.
Também é importante acompanhar a evolução do paciente.
Um cão inicialmente submetido ao tratamento conservador precisa ser reavaliado. Melhorar nos primeiros dias após repouso e medicação não significa necessariamente que a estabilidade normal do joelho foi restabelecida. É preciso observar como o animal evolui à medida que retorna gradualmente às suas atividades.
Da mesma forma, a presença de osteoartrose precisa ser considerada. A ruptura do ligamento cruzado cranial é uma doença que envolve não apenas o ligamento, mas toda a articulação. Alterações inflamatórias e degenerativas podem continuar ocorrendo ao longo do tempo, independentemente do tamanho do paciente.
Por isso, uma das perguntas mais importantes durante a avaliação não deveria ser apenas “meu cachorro é pequeno demais para operar?”, mas sim “qual tratamento oferece a melhor perspectiva de função para este joelho?”.
O tamanho continua sendo uma informação relevante, mas não deve ser analisado isoladamente.
O exame ortopédico permite avaliar a presença e o grau de instabilidade, investigar alterações associadas, verificar se existe luxação de patela, observar a distribuição da musculatura e relacionar esses achados com o histórico clínico do animal.
As radiografias complementam essa avaliação, permitindo identificar sinais de osteoartrose, derrame articular e outras alterações, além de serem fundamentais para o planejamento de determinadas técnicas cirúrgicas.
Portanto, cachorros pequenos também podem precisar operar o ligamento cruzado.
Ao mesmo tempo, nem todo cachorro pequeno com ruptura do ligamento cruzado obrigatoriamente precisa ser submetido a uma cirurgia. Existem pacientes que podem apresentar evolução satisfatória com tratamento conservador, e existem pacientes nos quais a estabilização cirúrgica pode ser a alternativa mais adequada.
A principal mudança na forma de enxergar esse problema é abandonar uma regra antiga e excessivamente simples de que "cachorro pequeno não precisa operar". Hoje, a decisão deve ser individualizada, levando em consideração não apenas quantos quilos o cachorro pesa, mas principalmente o grau de instabilidade do joelho, os sinais clínicos, sua anatomia, seu nível de atividade, as alterações ortopédicas associadas e a resposta aos tratamentos já realizados. A literatura disponível especificamente para cães pequenos ainda apresenta limitações, o que reforça a importância da avaliação individual de cada paciente. (PubMed)
Referências bibliográficas
Brioschi V. Cranial cruciate ligament rupture in small dogs (<15 kg): a narrative literature review. Journal of Small Animal Practice. 2021;62(12):1037-1050. doi:10.1111/jsap.13404. (PubMed)
Nganvongpanit K, et al. Short-term outcomes of cranial cruciate ligament rupture treated surgically with tibial plateau leveling osteotomy or non-surgically in small-breed dogs weighing less than 10 kg. Journal of Veterinary Medical Science. 2024;86(4):428-435. doi:10.1292/jvms.23-0512. (PubMed)
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.
