Cachorro voltou a mancar depois da TPLO: isso é normal?
- Felipe Garofallo

- 13 de jun.
- 4 min de leitura
Ver o cachorro voltar a mancar depois de uma cirurgia de ligamento cruzado costuma gerar bastante preocupação nos tutores.

Afinal, após semanas de recuperação, medicações, repouso e expectativas de melhora, perceber que o animal voltou a apoiar mal a pata ou mancar novamente pode causar medo de que algo tenha dado errado na cirurgia.
A boa notícia é que, em alguns casos, uma piora temporária da claudicação pode acontecer e não necessariamente significa uma complicação grave. No entanto, também existem situações em que a volta da claudicação merece investigação rápida. Saber diferenciar o que pode ser esperado do que exige atenção veterinária é fundamental para proteger a recuperação do joelho operado.
Após procedimentos para ruptura do ligamento cruzado cranial, como TPLO, TTA ou técnicas extracapsulares, o processo de recuperação não costuma ser totalmente linear. Muitos cães passam por fases de melhora e pequenas oscilações durante o pós-operatório.
É relativamente comum o tutor perceber evolução importante nas primeiras semanas, seguida de episódios discretos de mancar novamente, principalmente após aumento de atividade física, excesso de entusiasmo ou pequenos exageros no movimento.
Isso pode acontecer porque músculos, articulação e tecidos ao redor do joelho ainda estão em processo de adaptação e fortalecimento.
Nos primeiros dias após a cirurgia, algum grau de claudicação é completamente esperado. Muitos cães apoiam pouco a pata inicialmente e melhoram gradualmente nas semanas seguintes. Porém, quando o cachorro estava evoluindo bem e volta a mancar após dias ou semanas de melhora, é importante avaliar o contexto.
Uma claudicação leve e temporária, especialmente após esforço maior do que o recomendado, pode acontecer sem necessariamente indicar falha cirúrgica. Alguns cães exageram durante brincadeiras, escorregam no piso, sobem no sofá ou correm de maneira inesperada, provocando inflamação transitória dos tecidos ao redor do joelho.
Em cães submetidos à TPLO, por exemplo, a recuperação óssea ainda está acontecendo durante as primeiras semanas. Embora muitos pacientes demonstrem melhora clínica rápida, o osso e a musculatura ainda não estão totalmente preparados para atividades intensas.
Pequenos episódios de sobrecarga podem gerar desconforto temporário, levando o cão a mancar discretamente por um ou dois dias. Em alguns casos, repouso controlado e redução da atividade costumam melhorar o quadro.
Outro motivo relativamente comum para o cachorro voltar a mancar após cirurgia de ligamento cruzado é o excesso de atividade precoce. Um dos maiores desafios no pós-operatório é justamente controlar cães que se sentem bem rapidamente e tentam retomar comportamentos normais antes do tempo.
Saltar, correr, brincar intensamente, subir escadas ou escorregar pode irritar tecidos em cicatrização e provocar inflamação local. Isso nem sempre significa falha do procedimento, mas pode atrasar a recuperação.
A perda muscular também influencia bastante. Muitos cães chegam à cirurgia já com importante atrofia muscular devido ao período de dor e desuso do membro antes do procedimento. Mesmo após estabilização do joelho, o músculo ainda precisa ser reconstruído progressivamente.
Em alguns momentos, principalmente após aumento de atividade, o animal pode demonstrar fadiga muscular e mancar mais do que o esperado.
Entretanto, existem situações em que o retorno da claudicação merece atenção mais imediata. Quando o cachorro volta a mancar intensamente, para de apoiar completamente a pata, demonstra dor evidente, vocaliza, apresenta inchaço importante ou piora progressiva, uma reavaliação veterinária é recomendada.
Em alguns casos, podem ocorrer complicações como inflamação excessiva, infecção, problemas nos implantes, atraso de consolidação óssea ou lesão do menisco.
A lesão meniscal é uma preocupação importante em cães operados do ligamento cruzado. O menisco funciona como uma estrutura de amortecimento dentro do joelho e pode sofrer lesões tanto antes quanto depois da cirurgia.
Alguns pacientes apresentam melhora inicial após o procedimento e, semanas depois, voltam a mancar devido a uma lesão meniscal residual ou progressiva. Em determinados casos, tutores descrevem um início relativamente súbito da claudicação após um movimento específico ou atividade aparentemente simples.
Além disso, é importante lembrar que nem toda claudicação após cirurgia está necessariamente relacionada ao joelho operado.
Alguns cães passam a sobrecarregar o membro oposto durante o período de recuperação e podem desenvolver dor no outro joelho. Isso merece atenção porque cães com ruptura do ligamento cruzado possuem risco aumentado de romper o ligamento do membro contralateral ao longo do tempo.
Em alguns pacientes, o tutor acredita que o joelho operado piorou, mas na verdade o problema começou no lado oposto.
As consultas de reavaliação e exames de imagem desempenham papel essencial quando existe dúvida sobre a evolução. Radiografias ajudam a acompanhar a consolidação óssea, posição dos implantes e estabilidade da osteotomia em casos de TPLO.
Dependendo dos sinais clínicos, o veterinário pode recomendar exames adicionais ou ajustes no protocolo de recuperação.
A fisioterapia veterinária também pode ajudar bastante nesses casos. Em cães que apresentam recuperação mais lenta, fraqueza muscular ou claudicação persistente, técnicas de reabilitação ajudam a melhorar mobilidade, fortalecimento muscular e padrão de marcha, reduzindo sobrecarga sobre o joelho operado.
Em resumo, o cachorro voltar a mancar após cirurgia de ligamento cruzado pode ser normal em algumas situações, especialmente quando ocorre de forma leve, temporária e associada a excesso de atividade. Porém, claudicação intensa, persistente ou acompanhada de dor, edema ou perda de apoio merece investigação veterinária.
O mais importante é não ignorar mudanças no padrão de marcha e evitar assumir que “vai melhorar sozinho”, principalmente durante as primeiras semanas do pós-operatório, quando o joelho ainda está em fase crítica de recuperação.
Referências bibliográficas
Small Animal Surgery. Fossum, T. W. Small Animal Surgery. 4th ed. St. Louis: Mosby Elsevier, 2013.
Canine Sports Medicine and Rehabilitation. Millis, D. L.; Levine, D. Canine Sports Medicine and Rehabilitation. 2nd ed. Hoboken: Wiley-Blackwell, 2014.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.