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Cachorro mancando com raio-X normal: e agora?

Ver seu cachorro mancando é angustiante. Muitos tutores procuram rapidamente atendimento veterinário, fazem um exame de imagem e recebem uma resposta aparentemente tranquilizadora: “o raio-X está normal”.



Porém, ao chegar em casa, a realidade continua a mesma: o cão segue mancando, demonstra desconforto, evita apoiar a pata ou parece não conseguir voltar à rotina normal. Isso costuma gerar uma dúvida muito comum: se o raio-X deu normal, por que meu cachorro continua mancando?


A resposta é simples e, ao mesmo tempo, importante: um raio-X normal não significa necessariamente ausência de doença ortopédica ou neurológica. Existem várias alterações que podem causar dor e claudicação em cães e que, especialmente em fases iniciais, podem não aparecer no exame radiográfico convencional.


Em muitos casos, o problema está em estruturas que o raio-X não avalia bem, como ligamentos, tendões, músculos, meniscos, cartilagens ou até mesmo nervos.


O exame de raio-X é extremamente importante dentro da ortopedia veterinária, mas ele é apenas uma peça do quebra-cabeça. Muitas vezes, o exame físico ortopédico realizado por um veterinário experiente é tão ou até mais importante do que a própria imagem.


Quando um cachorro manca e o raio-X está aparentemente normal, uma das primeiras possibilidades que deve ser considerada é uma lesão de tecidos moles, algo bastante comum em cães ativos, atletas, idosos ou até mesmo em animais que sofreram pequenos traumas que passaram despercebidos pelo tutor.


Entorses, distensões musculares e pequenas lesões ligamentares frequentemente causam dor significativa, mas podem não deixar nenhum sinal evidente no exame radiográfico.


Isso é especialmente comum em cães com lesão do ligamento cruzado cranial, uma das doenças ortopédicas mais frequentes na medicina veterinária. Em alguns casos iniciais, o cachorro apresenta uma claudicação leve ou intermitente, principalmente após exercício, e o raio-X ainda não mostra alterações importantes.


O tutor pode ouvir que “não tem nada no exame”, mas o animal continua demonstrando desconforto ao caminhar, correr ou subir escadas. Com o tempo, conforme a instabilidade articular progride, surgem sinais de osteoartrose e derrame articular, tornando as alterações mais evidentes radiograficamente.


Outro motivo muito frequente para um cachorro mancar mesmo com raio-X normal é a luxação de patela em estágio inicial ou intermitente. Alguns cães, principalmente os de pequeno porte, podem apresentar episódios de “pular” com a perna traseira por alguns segundos e depois voltar ao normal.


Nem sempre o raio-X consegue mostrar claramente a instabilidade da patela, porque o exame é estático. Muitas vezes, o diagnóstico é feito principalmente através do exame ortopédico, avaliando o grau de deslocamento da patela e a estabilidade da articulação.


Além disso, há doenças articulares que podem estar em estágio muito precoce. Um cachorro jovem com displasia coxofemoral inicial, por exemplo, pode demonstrar dificuldade para correr, relutância em pular ou uma claudicação discreta, mesmo quando o raio-X ainda não mostra alterações dramáticas.


Em alguns casos, exames específicos, posicionamentos adequados ou até métodos avançados de imagem são necessários para identificar o problema.


Existem também situações em que a dor não vem necessariamente dos ossos ou articulações, mas da coluna vertebral. Problemas neurológicos, como doenças do disco intervertebral, podem causar alterações na marcha que muitos tutores confundem com mancar. Alguns cães parecem “pisar estranho”, arrastar levemente a pata ou demonstrar fraqueza intermitente.


Dependendo da região afetada e da fase da doença, o raio-X simples pode não revelar alterações relevantes. Nesses casos, exames como tomografia computadorizada ou ressonância magnética podem ser necessários para um diagnóstico mais preciso.


Outro ponto extremamente importante é entender que o tempo entre o início dos sintomas e a realização do exame faz diferença.


Muitas alterações ortopédicas levam dias ou semanas para se tornarem visíveis no raio-X. Uma fissura óssea discreta, uma inflamação articular inicial ou alterações relacionadas a microtraumas podem passar despercebidas nos primeiros dias.


Por isso, não é raro que um veterinário recomende repetir o exame após algum tempo, caso a claudicação persista.


Também existe a possibilidade de o exame ter sido realizado sem os posicionamentos ideais ou sem sedação adequada. Em ortopedia veterinária, detalhes fazem diferença. Um cão tenso, com dor ou mal posicionado pode dificultar a interpretação radiográfica.


Às vezes, uma alteração sutil passa despercebida em um primeiro momento e só é identificada após uma nova avaliação ou com radiografias adicionais.


Quando um cachorro continua mancando após um raio-X normal, é fundamental observar alguns sinais de alerta. Se ele apresenta dor persistente, piora progressiva, dificuldade para apoiar a pata, perda muscular, dificuldade para levantar, relutância em brincar ou qualquer mudança no comportamento, uma reavaliação é recomendada.


Muitos cães aprendem a compensar a dor e parecem “melhores”, mas continuam sofrendo silenciosamente.


Um erro relativamente comum é assumir rapidamente que “não é nada” apenas porque o raio-X não mostrou alterações evidentes.


Em alguns casos, o animal recebe apenas anti-inflamatório e repouso, melhora temporariamente e depois volta a mancar semanas ou meses depois, já com uma doença mais avançada. Isso acontece frequentemente em rupturas parciais de ligamento cruzado, lesões meniscais e problemas articulares progressivos.


Por outro lado, também é importante não entrar em pânico. Nem todo cachorro mancando com raio-X normal tem uma doença grave.


Às vezes, trata-se apenas de uma inflamação muscular leve, uma pancada, uma sobrecarga após atividade intensa ou um pequeno trauma que melhora com repouso adequado, controle da dor e acompanhamento veterinário. O segredo está em monitorar a evolução.


Se o seu cachorro continua mancando mesmo após um raio-X aparentemente normal, a pergunta mais importante talvez não seja “o exame deu normal?”, mas sim “por que ele ainda sente dor?”.


O foco deve estar no paciente e nos sinais clínicos, não apenas na imagem. Um bom exame ortopédico, aliado a uma investigação cuidadosa, costuma ser o caminho mais seguro para descobrir a causa.


Na prática, muitos diagnósticos ortopédicos são construídos somando histórico, exame físico, avaliação da marcha, palpação articular, testes ortopédicos específicos e exames complementares quando necessário. O raio-X é uma ferramenta valiosa, mas dificilmente conta toda a história sozinho.


Se seu cachorro está mancando e o raio-X veio normal, não ignore os sinais. Persistência da claudicação merece investigação, principalmente se houver dor, piora ou dificuldade de movimentação.


Em muitos casos, um diagnóstico precoce faz toda a diferença para evitar desgaste articular, dor crônica e tratamentos mais complexos no futuro.


Referências bibliográficas


Small Animal Surgery Fossum, T. W. Small Animal Surgery. 5th ed. St. Louis: Elsevier, 2018.

BSAVA Manual of Canine and Feline Musculoskeletal Disorders Houlton, J.; Cook, J.; Innes, J.; Langley-Hobbs, S. BSAVA Manual of Canine and Feline Musculoskeletal Disorders. Gloucester: British Small Animal Veterinary Association, 2006.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


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