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Cachorro idoso pode fazer cirurgia do ligamento cruzado (TPLO)?

26 de set.
7 min de leitura

Sim. Cachorro idoso pode fazer cirurgia do ligamento cruzado (TPLO) e a idade, isoladamente, não é uma contraindicação para o procedimento.


Cão idoso marrom deitado em cama macia, em sala iluminada pelo sol, com expressão calma e acolhedora.

Quando um cão mais velho apresenta ruptura do ligamento cruzado cranial, a decisão de realizar ou não uma cirurgia deve considerar principalmente seu estado geral de saúde, a intensidade da dor, o grau de instabilidade do joelho, sua capacidade de locomoção e a presença de outras doenças, e não simplesmente o número de anos que o animal possui.


Essa é uma dúvida bastante comum entre tutores. Quando um cachorro de 10, 12 ou até mais anos rompe o ligamento cruzado, é natural surgir a preocupação de que ele seja "velho demais" para uma cirurgia ortopédica. Entretanto, cães idosos podem continuar ativos e ter boa qualidade de vida por vários anos, e uma doença ortopédica dolorosa pode limitar consideravelmente essa fase da vida.


A doença do ligamento cruzado cranial é, inclusive, frequentemente observada em cães adultos e idosos. Na maioria dos cães, o problema não acontece simplesmente porque o animal sofreu um grande trauma.


Existe frequentemente um processo degenerativo progressivo do próprio ligamento, que perde resistência ao longo do tempo até apresentar ruptura parcial ou completa. O American College of Veterinary Surgeons (ACVS) inclui o envelhecimento e a degeneração ligamentar entre os fatores relacionados à doença do ligamento cruzado cranial. (ACVS)


Quando o ligamento cruzado cranial perde sua função, o joelho se torna biomecanicamente instável. Durante o apoio do membro, ocorre uma movimentação anormal entre a tíbia e o fêmur. Essa instabilidade pode causar dor, inflamação, claudicação e favorecer a progressão da osteoartrose. Lesões dos meniscos também podem estar associadas à doença.


Em um cachorro idoso, esse problema pode ter um impacto ainda maior sobre a qualidade de vida. Muitos desses pacientes já apresentam alguma redução de massa muscular, osteoartrose em outras articulações ou alterações de coluna. Quando deixam de utilizar adequadamente uma das patas traseiras por causa da dor no joelho, passam a sobrecarregar os outros membros.


Com o passar do tempo, o tutor pode perceber que o cachorro apresenta dificuldade para levantar, evita escadas, não consegue mais entrar no carro, reduz a duração dos passeios ou começa a escorregar com maior frequência.


Às vezes essas alterações são atribuídas simplesmente à idade, quando parte importante da limitação pode estar relacionada a um problema ortopédico tratável.


É justamente por isso que a pergunta não deveria ser apenas "meu cachorro está velho demais para operar?", mas também "quanto essa lesão está comprometendo a qualidade de vida dele?"


A TPLO, sigla para Tibial Plateau Leveling Osteotomy, é uma das técnicas utilizadas para o tratamento da ruptura do ligamento cruzado cranial em cães. Diferentemente de procedimentos que procuram substituir diretamente o ligamento rompido, a TPLO modifica a biomecânica do joelho.


Durante a cirurgia, é realizada uma osteotomia, ou seja, um corte controlado na região proximal da tíbia. O platô tibial é então rotacionado de acordo com o planejamento cirúrgico e estabilizado com uma placa e parafusos.


Essa alteração busca neutralizar a instabilidade funcional produzida pela deficiência do ligamento cruzado durante o apoio do membro. O osso posteriormente passa por um processo de consolidação ao redor da osteotomia. (ACVS)


Por envolver uma osteotomia, é compreensível que exista preocupação quando o paciente é idoso. No entanto, idade cronológica e condição clínica não são a mesma coisa.


Dois cães de 12 anos podem apresentar condições completamente diferentes. Um pode estar ativo, caminhar diariamente, apresentar exames laboratoriais adequados e não possuir doenças sistêmicas importantes.


Outro cão da mesma idade pode apresentar doença cardíaca, renal, endócrina ou outras condições que aumentem o risco anestésico ou dificultem sua recuperação.

Por isso, antes de uma TPLO em um paciente geriátrico, é particularmente importante realizar uma avaliação pré-operatória individualizada.


Além do exame físico e ortopédico, geralmente são realizados exames laboratoriais para avaliar parâmetros importantes antes da anestesia. Dependendo da idade, histórico e condições clínicas do paciente, exames adicionais podem ser indicados.


O próprio ACVS destaca a importância da avaliação da saúde geral e de exames de sangue antes de uma intervenção cirúrgica. (ACVS)


Caso alguma alteração seja identificada, isso não significa automaticamente que a cirurgia esteja proibida. O objetivo é compreender o risco daquele paciente, investigar alterações relevantes quando necessário e estabelecer um protocolo anestésico e perioperatório adequado.


Outro aspecto importante é avaliar o restante do sistema locomotor. Um cachorro idoso pode apresentar, além da ruptura do ligamento cruzado, displasia coxofemoral, osteoartrose, alterações de coluna, doença no joelho contralateral ou perda significativa de massa muscular.


Essas condições precisam ser consideradas ao estabelecer a expectativa de recuperação.

Por exemplo, corrigir a instabilidade do joelho pode resolver uma importante fonte de dor e melhorar consideravelmente a função daquele membro, mas a cirurgia não elimina problemas ortopédicos existentes em outras regiões.


Um cachorro com osteoartrose severa nos quadris ou alterações neurológicas importantes pode continuar apresentando alguma dificuldade locomotora mesmo depois de uma TPLO tecnicamente bem-sucedida.


Da mesma forma, a TPLO não faz desaparecer toda a osteoartrose que já se desenvolveu no joelho antes da cirurgia. O objetivo principal é controlar a instabilidade associada à deficiência do ligamento e proporcionar melhores condições para utilização do membro.


Também é importante considerar que a recuperação não termina no momento da cirurgia. A TPLO exige um período de restrição de atividade enquanto ocorre a consolidação óssea. O ACVS destaca que técnicas baseadas em osteotomia necessitam de várias semanas de restrição durante a cicatrização do osso. (ACVS)


Nos primeiros dias, o controle adequado da dor e os cuidados com a incisão cirúrgica são particularmente importantes. Progressivamente, conforme a evolução clínica e radiográfica, o nível de atividade pode ser aumentado.


Em cães idosos, a preservação da musculatura durante esse período merece atenção especial. Repouso não deve ser confundido com abandono completo do movimento por períodos prolongados. A quantidade e o tipo de exercício precisam ser definidos de acordo com a fase de recuperação e a orientação do médico-veterinário responsável.


Outro ponto que preocupa muitos tutores é a anestesia.


É comum ouvir que "cachorro velho não pode ser anestesiado", mas essa afirmação é simplista. A idade pode estar associada a uma maior frequência de doenças concomitantes, porém a avaliação do risco anestésico deve considerar o paciente como um todo. O histórico clínico, exame físico, função cardiovascular, renal e hepática, exames pré-operatórios e outras doenças existentes são muito mais informativos do que considerar apenas a idade cronológica.


Por isso, não existe uma idade universal a partir da qual a TPLO deixa de ser possível.


Não seria correto estabelecer que um cão de 8 anos pode operar, enquanto um de 11 ou 12 anos não pode. A indicação precisa ser individualizada.


Também é importante analisar o outro lado da decisão. Optar por não realizar uma cirurgia não significa necessariamente deixar o joelho sem consequências.


O tratamento conservador pode fazer parte das opções para determinados pacientes e envolve medidas como controle de peso, adequação de exercícios, analgesia e reabilitação. Entretanto, ele não elimina mecanicamente a instabilidade presente em um joelho com deficiência funcional do ligamento cruzado.


O ACVS considera idade, tamanho, conformação, atividade e grau de instabilidade entre os fatores que devem ser analisados na escolha entre tratamento cirúrgico e não cirúrgico. A entidade também descreve o tratamento cirúrgico como uma forma de controlar permanentemente a instabilidade decorrente da perda da função do ligamento. (ACVS)


Existe ainda um aspecto especialmente importante quando falamos de pacientes idosos: qualidade de vida.


Imagine um cachorro de 11 anos que, apesar da idade, ainda gosta de caminhar, interagir com a família e realizar suas atividades normalmente. Se esse paciente possui condições clínicas adequadas e passa a ter dor e dificuldade para andar em decorrência de uma ruptura do ligamento cruzado, recuperar a função daquele joelho pode representar uma diferença significativa na qualidade dos anos que ainda terá pela frente.


Por isso, muitas vezes faz mais sentido pensar em expectativa funcional do que simplesmente em expectativa de vida.


Não se realiza uma TPLO porque o cachorro precisa voltar a correr longas distâncias. O objetivo pode ser muito mais simples e importante: levantar-se com conforto, caminhar sem dor, conseguir passear, entrar no carro e manter independência para realizar suas atividades cotidianas.


Naturalmente, como qualquer procedimento cirúrgico, a TPLO não é isenta de riscos. Complicações relacionadas à incisão, infecção, implantes, consolidação óssea, menisco e outras intercorrências podem ocorrer. Por isso, indicação adequada, planejamento radiográfico, técnica cirúrgica, acompanhamento pós-operatório e respeito às restrições durante a recuperação são fundamentais.


Os resultados da cirurgia para doença do ligamento cruzado vêm sendo estudados há muitos anos. Estudos de acompanhamento de longo prazo mostram recuperação funcional importante após diferentes técnicas cirúrgicas, incluindo a TPLO. Em um estudo comparando procedimentos para doença do ligamento cruzado, cães submetidos à TPLO apresentaram, em média, mais de 90% da função relatada no acompanhamento superior a um ano, embora o estudo tenha utilizado avaliações subjetivas e não tenha sido desenhado especificamente para cães geriátricos. (Wiley Online Library)


Isso também demonstra por que é importante não prometer um resultado específico para todos os pacientes. O prognóstico de um cachorro idoso depende não apenas da cirurgia, mas da condição do joelho, tempo de evolução da doença, presença de lesão meniscal, grau de osteoartrose, peso, condição muscular, doenças concomitantes e cuidados durante o pós-operatório.


Em alguns pacientes geriátricos, após avaliação clínica, pode-se concluir que os benefícios esperados da cirurgia justificam o procedimento. Em outros, doenças sistêmicas importantes ou limitações locomotoras decorrentes de outros problemas podem modificar a recomendação. É exatamente por isso que a decisão deve ser individual.


Portanto, um cachorro idoso pode, sim, realizar uma cirurgia de TPLO para ruptura do ligamento cruzado cranial.


Não existe uma idade máxima universal para o procedimento. O mais importante é avaliar se aquele paciente apresenta condições clínicas para a anestesia e para a recuperação, quais outras doenças estão presentes e quanto a instabilidade do joelho está comprometendo sua mobilidade e qualidade de vida.


Ser idoso, por si só, não significa que um cão precise conviver com dor ou dificuldade de locomoção. Quando existe indicação adequada e condições clínicas favoráveis, o tratamento da ruptura do ligamento cruzado pode ter como objetivo justamente proporcionar mais conforto, mobilidade e independência durante a fase geriátrica.


Referências bibliográficas


Bergh MS, Sullivan C, Ferrell CL, Troy J, Budsberg SC. Systematic review of surgical treatments for cranial cruciate ligament disease in dogs. Journal of the American Animal Hospital Association. 2014;50(5):315-321.


Christopher SA, Beetem J, Cook JL. Comparison of long-term outcomes associated with three surgical techniques for treatment of cranial cruciate ligament disease in dogs. Veterinary Surgery. 2013;42(3):329-334. (PubMed)


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


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