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Cachorro cruza as patas traseiras ao andar: o que pode ser?

Alguns tutores percebem que o cachorro começou a cruzar as patas traseiras enquanto caminha. Em determinados momentos, uma pata passa na frente da outra, os pés parecem se encostar e o animal pode perder o equilíbrio ao fazer curvas ou andar em locais estreitos.



À primeira vista, esse movimento pode parecer apenas um jeito diferente de caminhar. Entretanto, quando um cachorro cruza as patas traseiras ao andar, principalmente se esse comportamento surgiu recentemente, existe a possibilidade de uma alteração ortopédica ou neurológica que merece investigação.


A marcha normal depende de uma comunicação precisa entre o cérebro, a medula espinhal, os nervos periféricos, os músculos e as articulações. O cachorro precisa reconhecer a posição de cada pata, sustentar o peso do corpo e coordenar o movimento dos quatro membros ao mesmo tempo.


Quando alguma parte desse sistema não funciona adequadamente, as patas podem ser posicionadas no lugar errado. Por isso, o cruzamento dos membros posteriores nem sempre significa apenas fraqueza muscular. Em muitos pacientes, ele representa uma dificuldade de coordenação conhecida como ataxia.


A ataxia não é uma doença específica, mas um sinal clínico. O animal pode continuar movimentando as pernas e até caminhar sozinho, porém perde parte da precisão dos passos. A base de sustentação pode ficar mais estreita ou mais ampla, o corpo balança e as patas traseiras podem se cruzar durante a locomoção.


Uma das causas mais importantes desse tipo de marcha é a compressão da medula espinhal. Hérnias de disco, por exemplo, podem pressionar a medula e prejudicar a transmissão das informações responsáveis pela coordenação dos membros.


Nos quadros iniciais, o cachorro nem sempre fica paralisado ou demonstra dor intensa. Os primeiros sinais podem ser discretos: tropeços, unhas raspando no chão, dificuldade para subir degraus, demora para se levantar ou cruzamento ocasional das patas traseiras.


Conforme a compressão progride, o animal pode apresentar fraqueza mais evidente, quedas frequentes e dificuldade para permanecer em pé. Em situações graves, ocorre perda parcial ou completa dos movimentos.


A região da coluna afetada influencia a forma como o cachorro caminha. Lesões na coluna toracolombar, localizada entre a parte média das costas e a região lombar, costumam provocar alterações principalmente nas patas traseiras. Já problemas na coluna cervical podem comprometer os quatro membros.


Outra possibilidade é a mielopatia degenerativa. Essa doença provoca uma degeneração progressiva da medula espinhal e costuma afetar cães adultos ou idosos. Pastor Alemão, Boxer, Welsh Corgi Pembroke e algumas outras raças apresentam maior predisposição, embora a condição possa ocorrer em cães de diferentes portes e origens.


No início, a mielopatia degenerativa geralmente não causa dor. O tutor pode notar que o cachorro arrasta as unhas, gasta mais um lado dos dedos, cruza as patas ou parece desajeitado nas curvas. A fraqueza costuma avançar lentamente ao longo dos meses.


É importante lembrar que nem todo cão idoso com dificuldade para andar possui mielopatia degenerativa. Artrose, displasia coxofemoral, ruptura do ligamento cruzado cranial, doenças de disco e perda de massa muscular são muito mais frequentes. O diagnóstico de mielopatia degenerativa exige a exclusão de outras causas que produzem sinais semelhantes.


Alterações na região lombossacra também podem interferir na força e no posicionamento das patas traseiras. A estenose lombossacra degenerativa, por exemplo, causa compressão de estruturas nervosas próximas ao final da coluna. Alguns cães demonstram dor ao levantar a cauda, relutância para pular, dificuldade para subir no carro e perda gradual de força nos membros posteriores.


Doenças que afetam os nervos periféricos também entram na lista de possibilidades. Quando os nervos responsáveis por levar estímulos até os músculos estão comprometidos, o cachorro pode apresentar fraqueza, redução dos reflexos e dificuldade para sustentar o peso do corpo.


Problemas ortopédicos, por sua vez, podem produzir uma marcha aparentemente parecida. Um cão com dor nos quadris ou nos joelhos pode aproximar as patas, encurtar os passos ou transferir o peso de maneira irregular para proteger uma articulação dolorida.


A displasia coxofemoral e a artrose dos quadris podem modificar o movimento da parte traseira do corpo. Nesses pacientes, além da alteração da marcha, é comum observar dificuldade para levantar, menor disposição para passeios, resistência para subir escadas e um movimento de balanço dos quadris.


A luxação de patela também pode alterar o alinhamento dos membros posteriores. Dependendo do grau da doença, a patela permanece fora de sua posição normal e interfere no funcionamento do joelho. O cachorro pode levantar uma pata por alguns passos, caminhar com os joelhos voltados para dentro ou apresentar deformidades progressivas.


Embora doenças ortopédicas possam aproximar os membros, o cruzamento repetido das patas associado a tropeços e perda de equilíbrio aumenta a suspeita de envolvimento neurológico. A diferença nem sempre é evidente para o tutor, razão pela qual a avaliação clínica é tão importante.


Alguns sinais associados exigem atenção especial. Arrastar as unhas, apoiar o dorso da pata no chão, cair ao fazer curvas, perder o equilíbrio quando a cabeça é movimentada e demorar para corrigir uma pata posicionada ao contrário sugerem perda de coordenação.


O chamado déficit de propriocepção ocorre quando o sistema nervoso demora para reconhecer a posição do membro. Durante o exame neurológico, o veterinário pode posicionar cuidadosamente a pata de forma inadequada e observar quanto tempo o cachorro leva para corrigi-la. Essa resposta ajuda a localizar a região do sistema nervoso que pode estar comprometida.


O diagnóstico começa pela conversa com o tutor. Informações como a velocidade de aparecimento dos sinais, presença de dor, histórico de quedas, progressão da dificuldade e mudanças na rotina ajudam a definir as principais suspeitas.


Gravar vídeos do cachorro caminhando em linha reta, fazendo curvas e se levantando pode ser muito útil. Alguns pacientes se movimentam de maneira diferente dentro do consultório por ansiedade, excitação ou pelo tipo de piso. Os vídeos mostram como o problema acontece no ambiente habitual.


Durante a consulta, são realizados exames ortopédico e neurológico. O veterinário avalia postura, marcha, força muscular, reflexos, sensibilidade, amplitude de movimento das articulações e presença de dor na coluna. Essa combinação permite diferenciar, em muitos casos, um problema articular de uma alteração neurológica.


Radiografias podem identificar artrose, displasia, deformidades vertebrais e outras alterações ósseas. Entretanto, a medula espinhal, os discos intervertebrais e os nervos não são avaliados adequadamente apenas com radiografias simples.


Quando existe suspeita de compressão da medula, exames como tomografia computadorizada ou ressonância magnética podem ser necessários. A escolha depende da região afetada, do quadro clínico e das hipóteses levantadas durante o exame neurológico.


O tratamento varia completamente de acordo com a causa. Não existe um único medicamento indicado para todo cachorro que cruza as patas traseiras.


Casos leves de doença do disco podem receber tratamento conservador com restrição rigorosa de atividade, controle da dor e acompanhamento. Em quadros com compressão importante, perda de força ou piora neurológica, a cirurgia pode ser recomendada para aliviar a pressão sobre a medula.


Doenças ortopédicas podem ser tratadas com controle de peso, atividade física planejada, fisioterapia, medicamentos e, em determinadas situações, cirurgia. A reabilitação veterinária também auxilia no fortalecimento muscular, equilíbrio e coordenação, mas deve ser iniciada após a definição do diagnóstico.


Evite medicar o cachorro por conta própria. Anti-inflamatórios de uso humano podem causar intoxicações graves, e a melhora temporária da dor não corrige uma possível compressão neurológica. Também não é indicado estimular caminhadas longas ou exercícios intensos antes de saber a origem da alteração.


Enquanto aguarda a avaliação, mantenha o animal em um ambiente seguro, sem acesso a escadas, sofás ou pisos escorregadios. Tapetes antiderrapantes ajudam a prevenir quedas. Se houver piora rápida, incapacidade de ficar em pé, dor intensa ou perda do controle de urina e fezes, o atendimento deve ser realizado com urgência.


Quando um cachorro cruza as patas traseiras apenas uma vez, durante uma curva apertada ou uma brincadeira, isso não significa necessariamente que exista uma doença. O sinal se torna mais preocupante quando é repetitivo, surge de forma recente ou aparece junto com fraqueza, tropeços, dor ou desgaste das unhas.


Alterações discretas da marcha costumam ser os primeiros indícios de diversos problemas ortopédicos e neurológicos. Quanto mais cedo a causa for identificada, maiores são as possibilidades de controlar a dor, evitar quedas e preservar a mobilidade.


Se você percebeu que seu cachorro começou a cruzar as patas traseiras ao andar, uma avaliação especializada na Ortho for Pets pode ajudar a diferenciar uma compensação ortopédica de uma alteração neurológica e orientar o tratamento mais adequado para cada caso.


Referências bibliográficas


DEWEY, Curtis W.; DA COSTA, Ronaldo C. Practical Guide to Canine and Feline Neurology. 3. ed. Ames: Wiley-Blackwell, 2016.


JOHNSTON, Spencer A.; TOBIAS, Karen M. Veterinary Surgery: Small Animal. 2. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


Horário: Segunda à sexta, 11h às 18h. Sábados 10:00 às 14:00
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