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Cachorro chora ao se mexer: o que fazer?

Atualizado: 26 de jul.

Se um cão reclama ao se movimentar, esse sinal clínico é um indicativo relevante de dor, cuja origem pode estar tanto na coluna vertebral quanto em articulações periféricas. A diferenciação entre essas etiologias é fundamental para direcionamento diagnóstico e terapêutico apropriado, considerando-se fatores como idade, raça, histórico clínico e manifestações associadas.

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A dor de origem axial, relacionada à coluna, frequentemente decorre de alterações estruturais ou infecciosas. A doença do disco intervertebral, notadamente frequente em raças condrodistróficas como Dachshund, Shih Tzu e Lhasa Apso, caracteriza-se pela extrusão ou protrusão do disco, com consequente compressão medular.


Clinicamente, esses animais podem apresentar dor intensa, rigidez, paresia ou mesmo paralisia, a depender do grau de comprometimento neurológico. A espondilose deformante é outro diagnóstico diferencial importante, associada à formação de pontes ósseas entre corpos vertebrais adjacentes, gerando dor crônica e limitação de mobilidade.


A discoespondilite, por sua vez, representa uma etiologia infecciosa — bacteriana ou, menos frequentemente, fúngica — com comprometimento dos discos intervertebrais e corpos vertebrais adjacentes. Os sinais clínicos incluem dor espinhal profunda, febre, apatia e, em casos avançados, déficits neurológicos.


Eventos traumáticos também devem ser considerados, sobretudo quando há histórico de quedas, atropelamento ou outras situações de impacto, podendo resultar em fraturas vertebrais ou luxações.


Os sinais clínicos sugestivos de dor axial incluem postura cifótica, relutância em subir escadas, vocalização ao toque dorsal, rigidez cervical ou lombar, tremores e dificuldade para se posicionar em decúbito ou levantar.


Em contraste, a dor articular apresenta apresentação clínica mais localizada. É comum em raças de médio a grande porte, como Labrador Retriever, Golden Retriever, Rottweiler e Pastor Alemão, especialmente em pacientes geriátricos.


Dentre as afecções mais prevalentes está a displasia coxofemoral, doença de origem multifatorial, com impacto direto na congruência articular e no desenvolvimento de osteoartrite secundária. A ruptura do ligamento cruzado cranial é outra etiologia relevante, com apresentação aguda de claudicação e incapacidade de apoio do membro pélvico afetado.


A osteoartrite, por seu caráter progressivo e degenerativo, manifesta-se com dor crônica, rigidez articular, dificuldade para movimentação após repouso e diminuição do nível de atividade física. Luxações e fraturas articulares também devem ser consideradas, sobretudo em animais com histórico de trauma ou esforço físico excessivo.


A distinção entre dor axial e articular pode ser feita com base na distribuição e natureza da dor. Enquanto a dor vertebral é frequentemente bilateral, profunda e associada à manipulação da coluna, a dor articular tende a ser mais localizada, com claudicação evidente de um membro específico, piora após exercício e, em alguns casos, presença de edema e crepitação articular.


Independentemente da origem da dor, a administração de medicamentos sem prescrição veterinária, especialmente anti-inflamatórios de uso humano, é contraindicada devido ao risco de toxicidade, incluindo lesões hepáticas e renais.


O manejo inicial deve incluir repouso em ambiente seguro e restrição de atividades físicas, com avaliação veterinária o mais breve possível — idealmente por um ortopedista veterinário, que poderá realizar exame físico completo, testes ortopédicos e neurológicos, além de solicitar exames complementares, como radiografias, tomografia computadorizada ou ressonância magnética.


O tratamento varia de acordo com a etiologia. Casos leves podem ser manejados com analgésicos, anti-inflamatórios não esteroidais e condroprotetores. Infecções exigem antibioticoterapia baseada em cultura e antibiograma.


Casos avançados de displasia, rupturas ligamentares ou hérnias compressivas requerem intervenção cirúrgica. Fisioterapia veterinária, acupuntura, laserterapia e terapias regenerativas, como aplicação de células-tronco, podem ser indicadas como parte de um protocolo multimodal de manejo da dor e reabilitação funcional.


A identificação precoce e o tratamento adequado são determinantes para o prognóstico. O reconhecimento dos sinais de dor e a busca por assistência especializada são fundamentais para garantir conforto, funcionalidade e qualidade de vida ao paciente.


Referências bibliográficas:


Brisson, B. A. (2010). Intervertebral disc disease in dogs. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, 40(5), 829–858.Johnston, S. A., & Tobias, K. M. (2018). Veterinary Surgery: Small Animal. Elsevier Health Sciences.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


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