Cachorro arrastando as unhas ao andar: sinal de problema na coluna ou nas articulações?
- Felipe Garofallo
- 15 de jul.
- 8 min de leitura
Perceber o cachorro arrastando as unhas no chão costuma começar com um detalhe quase imperceptível: um ruído de raspagem durante a caminhada, uma unha traseira mais gasta do que as outras ou pequenas marcas na parte de cima dos dedos.

Como o animal ainda consegue andar, muitos tutores interpretam a alteração como preguiça, idade avançada ou falta de força.
No entanto, arrastar as unhas pode ser um dos primeiros sinais de que o cão não está posicionando a pata corretamente, sente dor ao movimentar o membro ou perdeu parte da coordenação necessária para caminhar.
Isso não significa que todo cachorro que raspa as unhas tenha uma doença grave, mas significa que o sinal merece investigação, principalmente quando é novo, persistente ou progressivo.
Para caminhar normalmente, o cérebro precisa reconhecer a posição de cada pata, enviar comandos pela medula espinhal e pelos nervos periféricos, ativar músculos específicos e manter articulações com mobilidade suficiente.
Uma falha em qualquer etapa desse circuito pode fazer a ponta dos dedos demorar a sair do chão.
Por isso, quando o tutor pergunta se cachorro arrastando as unhas é problema na coluna ou nas articulações, a resposta mais correta é: pode ser neurológico, ortopédico ou uma combinação dos dois, e a diferença nem sempre pode ser determinada apenas observando o animal em casa.
O desgaste das unhas é consequência do contato repetido da superfície dorsal dos dedos com o solo.
Em alguns cães, a pata chega a virar por uma fração de segundo antes de voltar à posição normal.
Essa falha é chamada de déficit proprioceptivo quando decorre de alteração na capacidade do sistema nervoso de perceber e corrigir a posição do membro.
Em outros pacientes, a pata não vira, mas o cão reduz a flexão do quadril, joelho, tarso ou dedos por causa de dor, rigidez ou fraqueza, produzindo uma raspagem parecida.
Filmar o cão andando de lado, de frente e por trás pode ajudar o médico-veterinário, mas não substitui o exame clínico.
Os sinais iniciais podem ser muito discretos.
Além do som das unhas raspando, o tutor pode encontrar uma unha traseira curta ou achatada, notar que o cachorro tropeça em pisos irregulares, demora para corrigir a pata quando ela dobra, cruza os membros posteriores, balança o quadril ou gasta a sola de uma botinha de forma desigual.
Também podem aparecer dificuldade para subir escadas, relutância para pular no sofá, passos mais curtos, queda ocasional, tremor muscular ou cansaço precoce.
Quando o animal apresenta qualquer uma dessas mudanças, vale observar se o problema afeta uma pata, as duas patas traseiras ou também os membros dianteiros, pois essa distribuição ajuda a localizar a origem da alteração.
Problemas na coluna estão entre as causas mais importantes de cachorro arrastando as unhas.
A hérnia de disco pode comprimir a medula ou as raízes nervosas e causar dor, perda de coordenação, fraqueza e dificuldade para levantar os dedos do chão.
Alguns cães choram, arqueiam as costas, evitam ser tocados ou recusam movimentos, mas outros demonstram apenas uma alteração leve na marcha.
Raças condrodistróficas, como Dachshund, Shih-tzu, Lhasa Apso, Beagle e Bulldog Francês, têm predisposição a determinadas formas de doença do disco, embora qualquer cão possa ser afetado.
Quadros que pioram rapidamente, principalmente quando acompanhados de incapacidade para ficar em pé, perda de movimentos ou alteração urinária, exigem atendimento emergencial.
A espondilomielopatia cervical, popularmente chamada de síndrome de Wobbler, é outra possibilidade, sobretudo em cães de porte grande ou gigante.
Ela provoca compressão da medula na região do pescoço e pode causar uma marcha ampla, instável ou cambaleante, desgaste das unhas e fraqueza mais perceptível nos membros posteriores.
Como a lesão está na coluna cervical, os membros dianteiros também podem apresentar passos curtos ou rigidez.
Tumores, inflamações, infecções, malformações vertebrais e traumas da coluna também entram na lista de diagnósticos diferenciais.
A idade, a raça e a velocidade de evolução orientam a investigação, mas não confirmam a causa sozinhas.
Em cães idosos, a mielopatia degenerativa merece atenção.
Trata-se de uma doença neurodegenerativa progressiva que costuma começar com perda de coordenação e fraqueza nos membros posteriores, frequentemente sem dor evidente.
O tutor pode perceber que o cachorro arrasta as unhas, cruza as patas, escorrega e tem dificuldade crescente para se levantar.
Pastor Alemão, Boxer, Pembroke Welsh Corgi, Rhodesian Ridgeback e outras raças apresentam predisposição associada a variantes do gene SOD1, mas um teste genético positivo indica risco e não confirma, isoladamente, que os sinais sejam causados pela doença.
O diagnóstico em vida é presuntivo e depende de excluir doenças tratáveis, especialmente compressões da medula por hérnia de disco, tumores ou alterações degenerativas.
Alterações dos nervos periféricos também podem impedir que o cão eleve adequadamente os dedos.
Lesões do nervo ciático ou de seus ramos, neuropatias metabólicas, doenças neuromusculares e traumas podem causar fraqueza, perda de sensibilidade e apoio anormal da pata.
Nesses casos, a musculatura pode diminuir de volume, os reflexos podem ficar reduzidos e o desgaste das unhas pode ser assimétrico.
Uma lesão localizada pode afetar apenas um membro, enquanto doenças generalizadas tendem a produzir alterações em mais de uma pata.
O exame neurológico é essencial para diferenciar uma falha de comando central, uma lesão nervosa periférica e um problema primariamente muscular.
Nem sempre a origem é neurológica.
Osteoartrite no quadril, joelho, tarso ou dedos pode reduzir a amplitude de movimento e fazer o cão caminhar com passos baixos e curtos.
Displasia coxofemoral, ruptura do ligamento cruzado cranial, luxação de patela, lesões tendíneas e sequelas de fraturas também mudam a mecânica do membro.
Um cão com dor ortopédica costuma transferir o peso para outras patas, evitar determinados movimentos ou mancar, mas alguns compensam tão bem que a raspagem das unhas se torna o sinal mais perceptível.
Além disso, dor crônica e perda de massa muscular podem coexistir com doença da coluna, especialmente em pacientes idosos.
Obesidade e falta de condicionamento físico raramente explicam sozinhas uma pata que vira ou arrasta, mas agravam muitas causas.
O excesso de peso aumenta a carga sobre articulações doloridas, dificulta levantar os pés e acelera a fadiga.
Unhas excessivamente compridas também alteram a maneira de apoiar os dedos e podem intensificar o ruído no chão.
Ainda assim, cortar as unhas não resolve um déficit neurológico nem uma doença articular.
Se uma unha volta a apresentar desgaste anormal pouco depois do corte, se há feridas no dorso dos dedos ou se o animal tropeça, é importante procurar a causa em vez de apenas mascarar o sinal.
Na consulta, o médico-veterinário começa avaliando quando a alteração surgiu, se piorou, se existe dor, trauma recente, uso de medicamentos, dificuldade para urinar ou defecar e mudanças na disposição.
Depois observa a marcha em linha reta, curvas e diferentes velocidades.
O exame ortopédico procura dor, instabilidade, crepitação, redução de movimento, aumento de volume e atrofia muscular.
O exame neurológico avalia postura, coordenação, reflexos, força, sensibilidade e reações posturais, incluindo a rapidez com que o cão reposiciona a pata colocada em posição anormal.
Esses testes devem ser executados por profissional treinado, pois reproduzi-los repetidamente em casa pode causar queda ou desconforto e levar a interpretações erradas.
Os exames de imagem são escolhidos de acordo com a localização suspeita.
Radiografias ajudam a identificar fraturas, artrose, alterações vertebrais, displasia e outras doenças ósseas, mas não mostram detalhadamente a medula espinhal, os nervos ou todos os tecidos moles.
Por isso, um raio-X normal não encerra a investigação quando o cachorro continua arrastando as unhas.
A ressonância magnética é frequentemente o exame mais informativo para avaliar medula, discos intervertebrais, raízes nervosas e tecidos ao redor da coluna.
A tomografia computadorizada pode ser indicada em determinadas doenças ósseas ou discais, e exames de sangue, análise do líquido cerebrospinal, eletroneuromiografia e testes genéticos podem complementar casos específicos.
O tratamento depende inteiramente da causa e da gravidade.
Doenças articulares podem exigir controle de peso, atividade adaptada, fisioterapia, mudanças ambientais e analgesia multimodal.
Hérnias de disco leves e criteriosamente selecionadas podem ser tratadas de forma conservadora, com restrição de movimento e acompanhamento rigoroso, enquanto compressões importantes, dor que não responde ou déficits neurológicos progressivos podem exigir cirurgia.
Lesões ligamentares e algumas deformidades ortopédicas também podem ter indicação cirúrgica.
Na mielopatia degenerativa não existe, até o momento, tratamento capaz de curar ou reverter a degeneração, mas reabilitação planejada, suporte de mobilidade e prevenção de complicações ajudam a preservar função e qualidade de vida.
Anti-inflamatórios veterinários, gabapentina e outros analgésicos podem integrar o tratamento quando há dor, mas não devem ser escolhidos com base apenas no sintoma.
O uso de qualquer medicamento depende de avaliação e prescrição do médico-veterinário, e a automedicação pode colocar o animal em risco.
Medicamentos humanos como ibuprofeno, diclofenaco e naproxeno podem provocar intoxicações graves em cães.
Mesmo fármacos veterinários conhecidos, como meloxicam, carprofeno, firocoxib ou grapiprant, exigem seleção individual, dose correta e, em muitos pacientes, exames para avaliar rins, fígado, trato gastrointestinal e outras condições.
Não se deve combinar anti-inflamatórios nem associá-los a corticoides sem orientação específica.
A fisioterapia pode ser valiosa, mas precisa respeitar o diagnóstico.
Exercícios terapêuticos, hidroterapia, estimulação neuromuscular, treino de equilíbrio e fortalecimento podem melhorar condicionamento, controle corporal e segurança.
Em contrapartida, forçar caminhadas longas, subir escadas repetidamente ou realizar exercícios vistos na internet pode agravar dor e instabilidade.
Botinhas e protetores reduzem ferimentos nas unhas, mas devem ter bom ajuste, ser usados com supervisão e funcionar como proteção, não como substitutos da investigação.
Pisos antiderrapantes, tapetes firmes, rampas e apoio para levantar também diminuem quedas enquanto o diagnóstico é definido.
O prognóstico varia muito.
Uma unha raspando por causa de dor articular controlável pode melhorar bastante com tratamento adequado, enquanto uma compressão aguda da medula pode depender da rapidez do atendimento e da intensidade da lesão.
Neuropatias traumáticas podem se recuperar lentamente, e doenças degenerativas progressivas requerem acompanhamento contínuo e adaptações sucessivas.
O fato de o cão ainda andar não garante que seja seguro esperar semanas.
Déficits discretos podem preceder perda importante de mobilidade, e a identificação precoce amplia as opções terapêuticas e permite proteger a pele, preservar músculos e reduzir quedas.
Alguns sinais indicam urgência.
Procure atendimento imediato se o cão perder a capacidade de ficar em pé, piorar em horas, demonstrar dor intensa, gritar ao se mover, ficar com uma ou mais patas paralisadas, perder sensibilidade, sofrer trauma ou apresentar dificuldade para urinar.
Feridas profundas causadas pelo arraste também precisam de cuidado.
Quando a raspagem é leve, mas se repete, progride, ocorre junto com tropeços ou afeta mais de uma pata, a consulta deve ser agendada sem demora desnecessária.
Vídeos curtos da marcha em casa e fotografias do padrão de desgaste das unhas podem ser úteis para mostrar variações que não aparecem no consultório.
Entre os erros mais comuns estão atribuir tudo à idade, esperar o cão cair para procurar ajuda, oferecer anti-inflamatório que sobrou de outro tratamento, cortar as unhas cada vez mais curtas ou aumentar o exercício acreditando que falta apenas condicionamento.
Também é arriscado concluir que se trata de mielopatia degenerativa apenas por causa da raça ou de um teste genético.
Muitas doenças compressivas, ortopédicas e inflamatórias podem produzir sinais semelhantes e algumas têm tratamento específico.
Uma avaliação combinada da marcha, do sistema musculoesquelético e do sistema nervoso é o caminho mais seguro para evitar atrasos e tratamentos inadequados.
É possível prevenir todas as causas?
Não, porque existem doenças genéticas, degenerativas e eventos imprevisíveis.
Entretanto, manter peso adequado, oferecer exercício regular sem impactos excessivos, conservar as unhas no comprimento correto, usar pisos seguros, evitar saltos repetidos em cães predispostos e realizar avaliações periódicas ajuda a reduzir riscos e reconhecer alterações cedo.
Em pacientes idosos ou com histórico de coluna e articulações, o tutor deve observar não apenas se o cão manca, mas também a altura dos passos, a simetria do desgaste das unhas, a facilidade para virar e a disposição para levantar.
Quando um cachorro arrasta as unhas ao andar, o som no piso é apenas a parte visível de uma mudança que pode envolver articulações, músculos, nervos ou medula espinhal.
O diagnóstico precoce permite separar situações leves de doenças que exigem tratamento rápido, controlar a dor quando ela existe e preservar mobilidade pelo maior tempo possível.
Se você observou raspagem persistente, desgaste desigual das unhas, tropeços, patas cruzando ou dificuldade para levantar, uma avaliação com médico-veterinário ortopedista e neurologista é recomendada.
Referências bibliográficas
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Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.