Cachorro arrastando as unhas ao andar: por que isso acontece?
Perceber um cachorro arrastando as unhas no chão costuma começar por um detalhe aparentemente sem importância. Muitos tutores notam apenas um leve ruído de raspagem durante a caminhada, observam que uma unha está mais gasta que as demais ou encontram pequenas lesões na parte superior dos dedos.
Como o animal continua andando normalmente na maioria das vezes, é comum atribuir esse comportamento ao envelhecimento, à preguiça ou simplesmente ao desgaste natural. No entanto, esse sinal merece atenção, pois pode representar uma alteração na forma como o cão movimenta os membros e, em alguns casos, ser uma das primeiras manifestações de doenças ortopédicas ou neurológicas.
Durante uma caminhada normal, o cérebro precisa saber exatamente onde cada pata está posicionada, enviar impulsos pela medula espinhal e pelos nervos periféricos, ativar grupos musculares específicos e coordenar o movimento de diversas articulações ao mesmo tempo. Todo esse processo ocorre em frações de segundo e permite que os dedos sejam elevados adequadamente a cada passo, evitando que raspem no solo. Quando existe qualquer falha nesse sistema, seja por dor, perda de mobilidade articular, fraqueza muscular, alteração dos nervos ou comprometimento da medula espinhal, os dedos podem permanecer mais próximos do chão e acabar desgastando as unhas.
Isso não significa que todo cachorro que arrasta as unhas apresente uma doença grave. Entretanto, sempre que esse comportamento surgir de forma recente, persistir por vários dias ou piorar progressivamente, ele deve ser investigado por um médico-veterinário. Quanto mais precoce for o diagnóstico, maiores costumam ser as chances de controlar a causa e preservar a mobilidade do paciente.
O desgaste das unhas ocorre porque a superfície dorsal dos dedos passa a entrar repetidamente em contato com o chão durante a marcha. Em alguns cães, a pata chega a virar discretamente para baixo antes de ser corrigida espontaneamente. Quando isso acontece em decorrência de uma alteração do sistema nervoso, recebe o nome de déficit proprioceptivo.
A propriocepção é a capacidade que o organismo possui de reconhecer automaticamente a posição dos membros no espaço, corrigindo rapidamente qualquer posicionamento inadequado sem necessidade de atenção consciente. Quando esse mecanismo falha, o animal demora para perceber que a pata está posicionada incorretamente e continua arrastando os dedos por alguns instantes.
Entretanto, nem toda raspagem das unhas é causada por alterações neurológicas. Em muitos cães o problema acontece porque a dor limita o movimento das articulações ou porque existe perda de força muscular suficiente para diminuir a flexão do quadril, joelho, tarso ou dos próprios dedos. Nessas situações, embora o mecanismo seja diferente, o resultado pode ser praticamente idêntico ao observado nas doenças neurológicas.
Os sinais iniciais costumam ser bastante discretos. Além do som característico das unhas raspando no piso, alguns tutores percebem que uma unha traseira fica constantemente mais curta que as demais ou que determinadas unhas apresentam desgaste irregular. Outros observam pequenos tropeços durante caminhadas, dificuldade para caminhar sobre pisos irregulares, demora para corrigir a posição da pata quando ela dobra, cruzamento ocasional dos membros posteriores, balanço excessivo da pelve durante a marcha ou passos mais baixos do que o habitual.
Em situações mais avançadas também podem surgir dificuldade para subir escadas, resistência para subir em sofás ou camas, redução da velocidade ao caminhar, quedas ocasionais, tremores musculares e fadiga após pequenos exercícios.
Observar quais patas apresentam o problema também fornece informações importantes. Alguns cães arrastam apenas um membro, enquanto outros apresentam alterações nos dois membros posteriores ou até mesmo nos quatro membros. Esse padrão de distribuição ajuda o médico-veterinário a localizar a possível origem da lesão e definir quais exames serão mais indicados.
Entre as causas mais frequentes estão as doenças da coluna vertebral. A hérnia de disco é provavelmente uma das alterações mais conhecidas pelos tutores e pode provocar compressão da medula espinhal ou das raízes nervosas.
Dependendo da localização e da intensidade da compressão, o cão pode apresentar dor, perda de coordenação, fraqueza, dificuldade para levantar os dedos durante a caminhada e consequente desgaste das unhas. Em alguns pacientes surgem sinais evidentes, como vocalização de dor, arqueamento da coluna, dificuldade para levantar ou recusa em caminhar. Em outros, principalmente nas fases iniciais, a única alteração percebida pode ser justamente a raspagem das unhas durante o deslocamento.
Raças condrodistróficas como Dachshund, Shih-tzu, Lhasa Apso, Beagle e Bulldog Francês apresentam predisposição para determinados tipos de doença do disco intervertebral, embora qualquer raça possa desenvolver hérnias ao longo da vida.
Quando o quadro evolui rapidamente e passa a ser acompanhado por perda da capacidade de caminhar, ausência de movimentos voluntários ou alterações urinárias, trata-se de uma emergência veterinária que exige atendimento imediato.
Outra doença importante é a espondilomielopatia cervical, conhecida popularmente como síndrome de Wobbler. Essa enfermidade ocorre principalmente em cães de grande porte e provoca compressão da medula espinhal na região cervical.
Como consequência, o animal desenvolve uma marcha ampla, instável e cambaleante, frequentemente acompanhada de desgaste das unhas e perda progressiva da coordenação dos membros posteriores. Por estar localizada na coluna cervical, também pode causar alterações nos membros torácicos, que passam a apresentar passos curtos, rigidez ou diminuição da amplitude dos movimentos.
Além dessas doenças, tumores vertebrais, inflamações da medula, infecções, malformações congênitas e traumas também podem comprometer a condução dos impulsos nervosos responsáveis pela marcha. A idade do paciente, a raça e principalmente a velocidade de evolução dos sintomas ajudam a orientar a investigação clínica, mas isoladamente nunca confirmam um diagnóstico.
Em cães idosos merece destaque a mielopatia degenerativa. Trata-se de uma doença neurodegenerativa progressiva que compromete lentamente a medula espinhal e costuma iniciar com perda de coordenação dos membros posteriores, geralmente sem dor evidente.
Muitos tutores descrevem que o cachorro começou apenas arrastando discretamente as unhas e, com o passar dos meses, passou a cruzar as patas, escorregar em pisos lisos, apresentar dificuldade para levantar e perder força gradativamente.
Pastor Alemão, Boxer, Pembroke Welsh Corgi, Rhodesian Ridgeback e algumas outras raças apresentam predisposição genética associada a alterações no gene SOD1. Entretanto, um teste genético positivo indica apenas aumento de risco e não confirma, por si só, que o animal possua mielopatia degenerativa.
O diagnóstico permanece sendo considerado presuntivo durante a vida e depende principalmente da exclusão de doenças potencialmente tratáveis, como hérnias de disco, tumores e outras compressões medulares.
As alterações também podem estar localizadas nos nervos periféricos. Lesões do nervo ciático, neuropatias metabólicas, doenças neuromusculares e traumas podem comprometer a capacidade de elevar corretamente os dedos durante a marcha.
Nesses casos, frequentemente observa-se diminuição da massa muscular, redução dos reflexos e desgaste assimétrico das unhas. Lesões localizadas costumam afetar apenas um membro, enquanto doenças sistêmicas tendem a produzir alterações em múltiplas patas.
Apesar da forte associação entre unhas raspando e doenças neurológicas, muitas causas são exclusivamente ortopédicas. A osteoartrite pode reduzir a amplitude dos movimentos das articulações e fazer o cão caminhar com passos mais baixos.
Displasia coxofemoral, ruptura do ligamento cruzado cranial, luxação de patela, lesões tendíneas e sequelas de fraturas alteram a mecânica da marcha e podem produzir exatamente o mesmo desgaste observado em doenças da medula espinhal.
Animais com dor ortopédica frequentemente redistribuem o peso entre os membros, evitam determinados movimentos ou apresentam claudicação. Entretanto, alguns compensam tão bem essas alterações que o único sinal percebido pelo tutor acaba sendo a raspagem das unhas. Além disso, não é raro que cães idosos apresentem simultaneamente artrose e doenças da coluna, tornando o diagnóstico ainda mais complexo.
Obesidade e falta de condicionamento físico dificilmente explicam sozinhas o fato de um cão arrastar as unhas, mas certamente podem agravar diversas doenças. O excesso de peso aumenta a carga sobre articulações doloridas, acelera a fadiga muscular e dificulta que o animal eleve corretamente os membros durante a marcha.
Da mesma forma, unhas excessivamente compridas alteram o apoio dos dedos e podem aumentar o ruído durante a caminhada, embora seu corte não resolva uma doença neurológica ou ortopédica subjacente. Quando uma unha volta rapidamente a apresentar desgaste exagerado após ser aparada, esse comportamento deve levantar suspeita de um problema locomotor ainda não identificado.
A avaliação clínica começa pela história detalhada. O médico-veterinário procura saber quando o problema surgiu, se existe dor, trauma recente, dificuldade para urinar ou defecar, uso de medicamentos e velocidade de evolução dos sinais clínicos. Em seguida observa cuidadosamente a marcha em diferentes velocidades, em linha reta e durante curvas.
O exame ortopédico avalia dor, instabilidade articular, limitação dos movimentos, crepitação, aumento de volume e perda de massa muscular. Já o exame neurológico analisa postura, coordenação, força, reflexos, sensibilidade e reações posturais, incluindo a velocidade com que o animal consegue corrigir uma pata colocada deliberadamente em posição inadequada. Esses testes exigem treinamento específico e não devem ser reproduzidos repetidamente em casa, pois podem causar quedas e levar a interpretações equivocadas.
A escolha dos exames complementares depende da suspeita clínica. Radiografias permitem identificar fraturas, artrose, displasia, alterações vertebrais e diversas doenças ósseas, mas possuem limitações importantes para avaliação da medula espinhal, dos nervos e dos tecidos moles. Portanto, um exame radiográfico normal não exclui doenças neurológicas.
Quando existe suspeita de comprometimento da coluna, a ressonância magnética costuma ser o exame mais completo, pois permite visualizar discos intervertebrais, medula espinhal, raízes nervosas e tecidos adjacentes com elevado detalhamento.
Em determinadas situações, a tomografia computadorizada também pode ser indicada, principalmente para avaliação de alterações ósseas. Exames laboratoriais, análise do líquido cerebrospinal, eletroneuromiografia e testes genéticos podem complementar a investigação conforme cada caso.
O tratamento depende exclusivamente da causa identificada. Doenças articulares frequentemente exigem controle rigoroso do peso corporal, adaptação das atividades físicas, fisioterapia e protocolos individualizados para controle da dor.
Hérnias de disco leves podem responder ao tratamento conservador, desde que criteriosamente selecionadas e acompanhadas de restrição de movimento. Já compressões importantes da medula, déficits neurológicos progressivos ou dor intensa frequentemente exigem intervenção cirúrgica.
Lesões ligamentares, determinadas deformidades ortopédicas e algumas fraturas também podem necessitar de cirurgia para restaurar a função adequada do membro. Já na mielopatia degenerativa ainda não existe tratamento capaz de interromper ou reverter a doença. Nesses pacientes, programas estruturados de reabilitação, adaptações ambientais e suporte de mobilidade desempenham papel fundamental para prolongar a independência e preservar a qualidade de vida.
Quando existe dor, diferentes medicamentos podem fazer parte do tratamento, incluindo anti-inflamatórios veterinários, gabapentina e outros analgésicos. Entretanto, nenhum deles deve ser utilizado apenas porque o cão está arrastando as unhas. A escolha depende do diagnóstico, das doenças associadas e da avaliação clínica completa. A automedicação representa risco significativo.
Medicamentos humanos como ibuprofeno, diclofenaco e naproxeno podem provocar intoxicações graves em cães. Mesmo anti-inflamatórios veterinários amplamente utilizados, como meloxicam, carprofeno, firocoxib ou grapiprant, exigem prescrição individualizada e nunca devem ser combinados entre si ou administrados simultaneamente com corticoides sem orientação profissional.
A fisioterapia veterinária pode representar uma parte importante do tratamento quando corretamente indicada. Exercícios terapêuticos, hidroterapia, treinamento de equilíbrio, fortalecimento muscular e estimulação neuromuscular ajudam muitos pacientes a recuperar condicionamento físico e melhorar a estabilidade durante a marcha. Em contrapartida, aumentar caminhadas por conta própria ou repetir exercícios encontrados na internet pode agravar doenças dolorosas ou instabilidades ainda não diagnosticadas.
Enquanto a investigação está em andamento, algumas adaptações ambientais podem reduzir o risco de lesões. Pisos antiderrapantes, tapetes bem fixados, rampas para substituir escadas e auxílio para levantar diminuem quedas e facilitam a locomoção. Botinhas e protetores podem proteger as unhas contra ferimentos decorrentes do atrito constante com o solo, mas devem ser utilizados apenas como medida de proteção temporária e nunca como substitutos da investigação clínica.
O prognóstico depende inteiramente da doença responsável pelos sinais. Alterações relacionadas apenas à dor articular costumam apresentar boa resposta quando diagnosticadas precocemente. Compressões medulares agudas dependem da rapidez do atendimento e da gravidade da lesão. Neuropatias traumáticas podem recuperar-se lentamente ao longo de meses, enquanto doenças degenerativas progressivas exigem acompanhamento contínuo e adaptações sucessivas para manter a qualidade de vida.
O fato de o cachorro ainda conseguir caminhar não significa que seja seguro aguardar várias semanas antes da avaliação. Em muitos pacientes, alterações discretas representam apenas o início de doenças que posteriormente comprometem significativamente a mobilidade. Diagnosticar essas alterações precocemente amplia as possibilidades terapêuticas, reduz o risco de quedas, preserva massa muscular e melhora a recuperação.
Alguns sinais indicam necessidade de atendimento imediato. Perda da capacidade de permanecer em pé, piora rápida em poucas horas, dor intensa, vocalização ao se movimentar, paralisia de um ou mais membros, perda de sensibilidade, traumatismos recentes ou dificuldade para urinar representam situações potencialmente emergenciais. Feridas profundas produzidas pelo arraste constante das unhas também necessitam de avaliação rápida.
Entre os erros mais comuns estão atribuir todos os sintomas ao envelhecimento, esperar que o cão caia antes de procurar ajuda, utilizar medicamentos que sobraram de tratamentos anteriores, cortar repetidamente as unhas tentando resolver o desgaste ou aumentar a intensidade dos exercícios acreditando que o problema seja apenas falta de condicionamento físico.
Também é inadequado concluir que um cão apresenta mielopatia degenerativa apenas porque pertence a uma raça predisposta ou possui um teste genético positivo, já que diversas doenças ortopédicas, inflamatórias e compressivas podem produzir sinais extremamente semelhantes e algumas delas possuem tratamento específico.
Embora nem todas as causas possam ser prevenidas, manter o peso corporal adequado, realizar exercícios regulares sem excesso de impacto, conservar as unhas em comprimento apropriado, oferecer pisos seguros dentro de casa e realizar avaliações periódicas, especialmente em cães idosos ou predispostos a doenças ortopédicas e neurológicas, contribui para reduzir riscos e identificar alterações ainda nas fases iniciais.
Quando um cachorro arrasta as unhas ao caminhar, o ruído produzido no piso representa apenas a manifestação visível de uma alteração que pode envolver articulações, músculos, nervos periféricos ou a própria medula espinhal. Identificar precocemente a origem desse sinal permite diferenciar situações relativamente simples de doenças que exigem tratamento urgente, controlar a dor quando ela está presente e preservar a mobilidade pelo maior tempo possível.
Sempre que houver raspagem persistente das unhas, desgaste desigual, tropeços frequentes, cruzamento das patas ou dificuldade crescente para caminhar, a avaliação por um médico-veterinário com experiência em ortopedia e neurologia representa a forma mais segura de estabelecer o diagnóstico e definir o tratamento mais adequado.
Referências bibliográficas
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Pancotto, T. E. Rehabilitation Therapy for the Degenerative Myelopathy Patient. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 53, n. 4, p. 845–856, 2023. DOI: 10.1016/j.cvsm.2023.02.017
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.
