top of page

Bezafibrato em cães: para que serve e quando é indicado

Atualizado: há 3 dias

O bezafibrato é um medicamento da classe dos fibratos, amplamente utilizado na medicina humana para o controle de alterações no metabolismo lipídico, especialmente em casos de colesterol e triglicerídeos elevados.



Na medicina veterinária, embora seu uso seja considerado extra-label (fora da bula para animais), o bezafibrato vem sendo empregado com relativa frequência no tratamento de cães com hiperlipidemia, hipertrigliceridemia e algumas doenças metabólicas associadas ao aumento anormal de gorduras no sangue.


O uso desse medicamento deve sempre ser acompanhado por um médico-veterinário, já que a escolha da dose, do tempo de tratamento e do monitoramento laboratorial depende da condição clínica do paciente.


A hiperlipidemia em cães pode ser primária, quando existe predisposição genética, ou secundária a outras doenças sistêmicas. Algumas raças, como Schnauzer Miniatura, Shetland Sheepdog e Beagle, apresentam maior predisposição genética ao aumento dos triglicerídeos sanguíneos.


Entretanto, na maioria dos casos observados na rotina clínica, os níveis elevados de gordura no sangue são consequência de doenças endócrinas e metabólicas, como hipotireoidismo, diabetes mellitus, hiperadrenocorticismo (síndrome de Cushing), obesidade, pancreatite ou dietas inadequadas ricas em gordura.


Quando os triglicerídeos e o colesterol permanecem elevados por períodos prolongados, podem surgir complicações importantes. Entre elas, estão episódios recorrentes de pancreatite, alterações hepáticas, problemas oftálmicos, desenvolvimento de lipemia retinal, alterações neurológicas e até dores abdominais inespecíficas.


Em alguns cães, especialmente nos casos mais leves, a alteração é descoberta apenas durante exames laboratoriais de rotina, sem sinais clínicos evidentes. Já em pacientes com hipertrigliceridemia severa, o soro pode apresentar aspecto visivelmente esbranquiçado ou turvo devido ao excesso de lipídios circulantes.


É nesse contexto que o bezafibrato pode se tornar uma opção terapêutica. O medicamento atua principalmente estimulando receptores chamados PPAR-alfa (peroxisome proliferator-activated receptors alpha), responsáveis por regular o metabolismo das gorduras.


Em termos práticos, isso significa que ele ajuda a reduzir os níveis de triglicerídeos e, em alguns casos, colesterol no sangue, promovendo maior metabolização e eliminação dessas gorduras.


O objetivo do tratamento não é apenas normalizar exames laboratoriais, mas também diminuir o risco de complicações clínicas, principalmente pancreatite, que pode representar uma condição grave e potencialmente fatal em cães.


Estudos veterinários têm mostrado resultados promissores com o uso do bezafibrato, especialmente em cães da raça Schnauzer Miniatura com hipertrigliceridemia idiopática.


Em muitos pacientes, ocorre redução expressiva dos triglicerídeos séricos após algumas semanas de uso, frequentemente associada a uma dieta com restrição de gordura. Isso é importante porque, na maioria dos casos, o medicamento isoladamente não resolve completamente o problema se a alimentação não for ajustada.


Dietas terapêuticas específicas, controle de peso e manejo da doença de base costumam fazer parte do tratamento.


A dose do bezafibrato em cães pode variar conforme o peso corporal, gravidade da alteração metabólica e protocolo adotado pelo veterinário.


Muitos profissionais utilizam doses baseadas em mg/kg administradas uma vez ao dia, embora exista variação conforme a resposta clínica e laboratorial do paciente.


Por isso, a automedicação deve ser evitada, especialmente porque o acompanhamento com exames seriados é fundamental para avaliar se os triglicerídeos realmente estão diminuindo e para monitorar possíveis efeitos adversos.


Em relação à segurança, o bezafibrato costuma ser relativamente bem tolerado por cães quando utilizado corretamente. Ainda assim, efeitos colaterais podem ocorrer.


Alguns animais podem apresentar desconforto gastrointestinal, redução do apetite, vômitos ou alterações hepáticas discretas.


Por esse motivo, muitos veterinários recomendam acompanhamento periódico por meio de exames de sangue, incluindo perfil lipídico, enzimas hepáticas e avaliação renal. Em pacientes com doenças hepáticas ou renais pré-existentes, a decisão pelo uso exige ainda mais cautela.


Outro ponto importante é entender que o bezafibrato nem sempre será necessário por tempo indefinido.


Em cães cuja hiperlipidemia é secundária a uma doença controlável (como diabetes ou hipotireoidismo), tratar a causa de base pode levar à melhora dos níveis lipídicos, reduzindo ou até eliminando a necessidade do medicamento.


Por outro lado, em cães com predisposição genética ou hiperlipidemia idiopática, o uso prolongado pode ser necessário, muitas vezes associado a mudanças alimentares permanentes. A resposta costuma ser individual, e alguns pacientes necessitam ajustes ao longo do tempo.


Também é importante considerar que nem todo aumento discreto de colesterol ou triglicerídeos exige medicação imediata.


Em alguns cães, especialmente quando as alterações são leves, o manejo inicial pode envolver apenas dieta apropriada, perda de peso e investigação da causa primária.


O bezafibrato tende a ser reservado para casos mais persistentes, mais graves ou associados a maior risco clínico, especialmente pancreatite recorrente.


Do ponto de vista clínico, o bezafibrato representa uma ferramenta interessante na medicina veterinária moderna, sobretudo porque muitos cães apresentam melhora laboratorial significativa quando bem selecionados para o tratamento.


No entanto, o sucesso terapêutico depende de uma abordagem integrada, envolvendo diagnóstico adequado, investigação da doença de base, ajuste nutricional e monitoramento periódico.


O medicamento não deve ser encarado como uma solução isolada, mas como parte de um plano terapêutico mais amplo voltado à saúde metabólica do paciente.


Referências bibliográficas

Xenoulis PG, Suchodolski JS, Levinski MD, Steiner JM. Investigation of hypertriglyceridemia in healthy Miniature Schnauzers. Journal of Veterinary Internal Medicine. 2007.


Xenoulis PG, Steiner JM. Lipid metabolism and hyperlipidemia in dogs. Veterinary Journal. 2010.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


Horário: Segunda à sexta, 11h às 18h. Sábados 10:00 às 14:00
Whatsapp: (11)97522-5102
Endereço: Alameda dos Guaramomis, 1067, Moema, São Paulo, SP

bottom of page