Os 12 pares de nervos cranianos em cães: quais são e para que servem
- Felipe Garofallo

- há 3 dias
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Os nervos cranianos em cães desempenham funções extremamente importantes para o funcionamento do organismo, sendo responsáveis por processos essenciais como olfato, visão, movimentação dos olhos, mastigação, audição, equilíbrio, deglutição e até pelo funcionamento de alguns órgãos internos.

Quando um cachorro apresenta sintomas neurológicos, como cabeça inclinada, perda de equilíbrio, dificuldade para mastigar, alterações faciais ou mudanças nos olhos, o médico-veterinário frequentemente realiza a avaliação dos nervos cranianos para ajudar a identificar a origem do problema.
Embora muitos tutores nunca tenham ouvido falar sobre os nervos cranianos dos cães, essas estruturas são fundamentais dentro da neurologia veterinária e ajudam no diagnóstico de doenças neurológicas, otites profundas, tumores, traumatismos e até alterações inflamatórias do sistema nervoso.
Para estudantes de medicina veterinária, compreender a anatomia e a função dos nervos cranianos também é uma etapa importante da formação clínica e cirúrgica.
Os cães possuem 12 pares de nervos cranianos, assim como os humanos. Eles recebem essa denominação porque se originam diretamente do encéfalo, especialmente do tronco encefálico, diferentemente dos nervos espinhais, que surgem da medula espinhal.
Esses nervos são numerados de I a XII, utilizando algarismos romanos, e cada um possui uma função específica, podendo atuar em estímulos sensitivos, motores ou mistos.
O primeiro nervo craniano é o nervo olfatório (I), responsável pelo olfato. Considerando a extraordinária capacidade olfativa dos cães, é possível imaginar a importância dessa estrutura no dia a dia dos animais.
O olfato influencia diretamente o comportamento, a alimentação, o reconhecimento do ambiente e até a comunicação entre cães. Alterações nesse nervo podem causar redução da capacidade de sentir odores, embora nem sempre seja algo facilmente percebido pelos tutores. Em alguns casos, doenças inflamatórias, tumores da cavidade nasal ou alterações intracranianas podem interferir nesse sistema.
O nervo óptico (II) é responsável pela visão, conduzindo os estímulos visuais da retina até o cérebro. Quando há comprometimento desse nervo, o cão pode apresentar perda parcial ou total da visão. Durante uma consulta neurológica, o veterinário costuma avaliar o reflexo pupilar e a resposta ao teste de ameaça para analisar a integridade desse nervo e das vias neurológicas associadas. Alterações como glaucoma avançado, neurite óptica, traumatismos e tumores podem afetar sua função.
O nervo oculomotor (III) possui papel fundamental nos movimentos dos olhos e também no controle da pupila. É ele quem participa da constrição pupilar e da movimentação de diversos músculos extraoculares. Quando ocorre lesão nesse nervo, o animal pode desenvolver pupila dilatada, estrabismo, queda da pálpebra superior e alterações na posição ocular. Em alguns casos de trauma craniano ou doenças neurológicas centrais, essas alterações tornam-se evidentes durante o exame físico.
Já o nervo troclear (IV) possui uma função mais específica, sendo responsável pela inervação do músculo oblíquo dorsal do olho. Embora lesões isoladas sejam relativamente raras, alterações nesse nervo podem provocar mudanças discretas no posicionamento ocular, especialmente um tipo de estrabismo rotacional.
Muitas vezes, alterações do nervo troclear são avaliadas em conjunto com outros nervos relacionados à motricidade ocular.
Entre os nervos cranianos, o nervo trigêmeo (V) merece destaque especial por sua relevância clínica.
Trata-se de um nervo misto, responsável tanto pela sensibilidade da face quanto pelos músculos envolvidos na mastigação. Ele possui três divisões principais: oftálmica, maxilar e mandibular.
Quando ocorre comprometimento do trigêmeo, o cão pode apresentar dificuldade para mastigar, perda de sensibilidade facial, mandíbula caída e incapacidade de fechar adequadamente a boca. Uma condição relativamente conhecida é a neurite idiopática do trigêmeo, na qual o animal subitamente deixa de conseguir fechar a mandíbula, causando grande preocupação aos tutores.
O nervo abducente (VI) também participa da movimentação ocular, sendo responsável principalmente pelo movimento lateral do globo ocular e pela retração do olho.
Quando há lesão, pode ocorrer estrabismo medial, além de incapacidade do animal movimentar corretamente o olho para os lados. Alterações desse nervo costumam ser observadas em doenças intracranianas, traumas ou síndromes neurológicas mais complexas.
O nervo facial (VII) é um dos mais lembrados pelos tutores quando ocorre algum problema neurológico, pois ele controla a musculatura da face. Quando afetado, pode surgir a chamada paralisia facial em cães, caracterizada por assimetria facial, incapacidade de piscar, queda da orelha, desvio labial e redução do lacrimejamento.
Em alguns pacientes, principalmente aqueles com otite média ou interna, o nervo facial pode ser comprometido devido à proximidade anatômica entre essas estruturas. Muitos tutores confundem esses sinais com um possível acidente vascular cerebral, embora nem sempre seja esse o caso.
O nervo vestibulococlear (VIII) possui funções relacionadas à audição e ao equilíbrio, sendo extremamente importante na rotina clínica veterinária. Alterações nesse nervo podem levar à chamada síndrome vestibular, um quadro frequentemente assustador para os tutores.
O cão pode apresentar cabeça inclinada, perda de equilíbrio, quedas, movimentos involuntários dos olhos chamados de nistagmo e dificuldade para caminhar. Em muitos casos, os sintomas aparecem de forma repentina, levando os tutores a procurarem atendimento emergencial. Otites internas, tumores, doenças inflamatórias e até síndromes vestibulares idiopáticas podem estar envolvidas.
O nervo glossofaríngeo (IX) participa da deglutição e da sensibilidade da região da garganta. Embora alterações isoladas sejam menos comuns, cães acometidos podem apresentar dificuldade para engolir, engasgos frequentes e alteração do reflexo faríngeo. Esse nervo geralmente é analisado em associação com outras estruturas nervosas responsáveis pela alimentação e deglutição.
O nervo vago (X) é considerado um dos mais importantes do corpo, já que desempenha funções relacionadas não apenas à deglutição, mas também ao controle do coração, pulmões, trato gastrointestinal e laringe. Quando comprometido, o cão pode desenvolver alterações respiratórias, mudanças na vocalização, disfagia e até megaesôfago em determinadas situações. Em alguns casos de doenças neuromusculares sistêmicas, o nervo vago também pode estar envolvido.
O nervo acessório (XI) está relacionado à movimentação muscular do pescoço e da região cervical. Embora seja menos frequentemente discutido na rotina clínica, lesões podem gerar dificuldade na movimentação da cabeça ou alterações discretas na postura cervical do animal.
Por fim, o nervo hipoglosso (XII) é responsável pela motricidade da língua. Alterações nesse nervo podem levar à dificuldade de apreensão do alimento, desvio da língua e até atrofia muscular lingual em casos mais crônicos.
Em cães com dificuldades para se alimentar, babação excessiva ou suspeita de doenças neuromusculares, a avaliação desse nervo pode ser bastante importante.
Durante o exame neurológico veterinário, o médico-veterinário realiza diferentes testes para avaliar a integridade dos nervos cranianos.
São observadas respostas como reflexo pupilar, resposta à ameaça, reflexo palpebral, movimentação dos olhos, simetria facial, audição, capacidade de deglutição e movimentação da língua. Essas informações ajudam no processo conhecido como neuro-localização, permitindo identificar em qual parte do sistema nervoso a alteração pode estar ocorrendo.
Diversas doenças podem comprometer os nervos cranianos em cães, incluindo otites profundas, tumores intracranianos, traumatismos, encefalites, doenças inflamatórias, hérnias cervicais altas e neuropatias periféricas. Em muitos casos, exames complementares como ressonância magnética, tomografia computadorizada, exames laboratoriais e avaliação neurológica detalhada podem ser necessários para se chegar ao diagnóstico definitivo.
Ao perceber sinais como alteração facial, cabeça inclinada, desequilíbrio, mudanças no olhar, dificuldade para mastigar ou problemas para engolir, é importante procurar atendimento veterinário o quanto antes. Quanto mais precoce for a investigação, maiores podem ser as chances de identificar a causa e iniciar um tratamento adequado.
Referências bibliográficas
FOSSUM, Theresa Welch. Cirurgia de pequenos animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.
DEWEY, Curtis W.; DA COSTA, Ronaldo C. Neurologia canina e felina: guia prático. 3. ed. Ames: Wiley-Blackwell, 2016.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.