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Ruptura do ligamento cruzado cranial em cães

Atualizado: 1 de dez. de 2021

Insuficiência do ligamento cruzado cranial, ruptura do ligamento cruzado anterior


Você pode acessar o artigo completo sobre ruptura do ligamento cruzado cranial em gatos clicando aqui.


O tema de hoje é um assunto muito importante a ser abordado aqui no site. Por ser a principal estrutura ligamentar do joelho dos cães, o ligamento cruzado cranial, quando lesionado, torna-se um problema grave para o cão. A instabilidade causada pela ausência da função desse ligamento no joelho faz com que o cão sinta dor ao pisar e não consiga andar, correr ou se exercitar com qualidade.

Antes de começarmos, é imprescindível lembrar que caso seu cão não seja diagnosticado e tratado corretamente, isso poderá acarretar em consequências graves para a saúde dele. Por isso, caso você perceba que seu cão está andando de mal jeito, ou que ele está com dores, procure imediatamente por um veterinário ortopedista para examiná-lo.


O ligamento cruzado cranial


Os ligamentos cruzados são estruturas formadas por um tecido fibroso denso, largo e robusto, em forma de "x" (por isso recebem o nome de cruzado). Eles unem dois importantes ossos um com o outro, o fêmur e a tíbia, e permitem que eles se articulem corretamente.


Eles estão localizados dentro da articulação do joelho e envoltos por uma cápsula articular e "estabilizam" a articulação, evitando que ela se mova em excesso. Existem dois ligamentos cruzados, o localizado mais à frente e mais próximo em direção a cabeça do cão, que recebe o nome de cranial. O posicionado logo atrás dele, recebe o nome de caudal.


Função do ligamento cruzado


O ligamento cruzado cranial, como citado anteriormente, une os dois ossos, evitando que eles movam-se em excesso. A "estabilidade" do joelho depende diretamente do ligamento, uma vez que a sua principal função é evitar que a tíbia rotacione demais internamente e que ela faça uma hiperextensão excessiva. Esse ligamento é o principal responsável por limitar esses movimentos, incluse, ele é o responsável por enviar sinais para o cérebro, através de receptores, para que ele limite qualquer movimento exagerado na articulação.


Mesmo que essa estrutura seja pequena, ela consegue ser muito forte e tem uma resistência à ruptura de aproximadamente quatro vezes o peso do animal, sendo responsável por permitir que o animal consiga apoiar seus membros traseiros no chão, andar, correr e pular de maneira natural e com facilidade.


Etiologia (causa)


Há duas principais causas de problemas no ligamento cruzado cranial. O processo degenerativo, ou seja, a frouxidão que acontece conforme o cão fica mais velho, ou uma lesão por trauma (correr atrás de um gato, pisar em um buraco enquanto corre, girar para latir no portão, etc). O peso do animal também é um fator influente, ou seja, animais obesos são mais predispostos.


Há ainda, cães com doenças coexistentes, como displasia coxofemoral e luxação de patela, que são candidatos maiores a ruptura do cruzado.


Como o ligamento cruzado cranial divide-se em duas porções, há casos onde apenas uma delas se rompe, essa é a chamada ruptura parcial.


Fatores ligados ao sedentarismo, desvios angulares, doenças imuno-mediadas como a artrite e sinovites também podem resultar ou agravar o problema.

Ao romper ou ficar insuficiente ao longo da vida, o ligamento permitirá a instabilidade da articulação, o que irá ocasionar muita dor, o cão irá mancar e um processo de artrose poderá ocorrer em curto prazo.


Raças predispostas


Cães pesados, tais como: Rottweiler, Labrador, Golden Retriever, Chow Chow, Buldogue Inglês e Boxer são mais predispostos.


Entretanto, os cães pequenos que frequentemente apresentam luxação de patela também estão na lista, sendo eles: Shih-tzu, Yorkshire, Poodle, Lhasa Apso, e Spitz Alemão.


Por outro lado, mesmo que sejam raças nas quais é necessária maior atenção, essa doença pode aparecer em qualquer cachorro de qualquer raça e porte.


Danos ao joelho


Ao romper o cruzado cranial de forma total ou parcial é possível que ocorram danos a outras partes do joelho do cão, como aos meniscos, principalmente o medial, que tem sua porção caudal ou posterior danificada em metade dos casos.


Além disso, o menisco tem como função amortecer os impactos e atritos entre os dois ossos (fêmur e tíbia) sendo muito importante nessa região.


Sinais clínicos (sintomas)


Os sinais clínicos associados são principalmente a dor e a dificuldade de se manter em pé e a apoiar no chão. Alguns cães podem parecer estar pisando com a ponta do pé (o chamado "andar em pinça", ou "andar em ovos"). E podem ainda, sentar com o a perna aberta para fora, o chamado "sit test".


Os cães também ficam com intolerância a atividades físicas e a região do joelho pode ficar dolorida e inchada, além de crepitante (como se estivesse estralando ao palpar).


Diagnóstico


Assim que for percebida qualquer mudança no comportamento do cão, vale ressaltar que o dono encaminhe-o ao veterinário para o exame físico do joelho.

Ao palpar o joelho, o veterinário ortopedista consegue dar o diagnóstico. Através de dois testes, o "teste de gaveta" e o "teste de compressão tibial".


Dessa forma ele poderá diagnosticar as rupturas agudas ou crônicas e informar se são parciais ou totais.


Exames necessários


Como citado anteriormente, o diagnóstico da ruptura poderá ser feito somente através da palpação da região do joelho. O veterinário ortopedista consegue sentir o deslocamento excessivo da tíbia em relação ao fêmur ao realizar os testes físicos.


Ele também poderá encaminhar o animal para o raio-x para realizar o planejamento cirúrgico e também para auxiliar no diagnóstico, visto que, poderá ser observado o grau de artrose envolvido e outras anormalidades ósseas poderão ser descartadas.


A análise do líquido sinovial (o líquido existente dentro da articulação), poderá ser solicitado para avaliar a presença de infecção ou doenças imuno-mediadas.


Além disso, a ressonância magnética, também poderá ser utilizada como um método complementar, ideal para avaliar com detalhe as estruturas do joelho, fornecendo imagens com melhor definição e contraste dos ligamentos, tendões e meniscos.


Caso o cão não seja encaminhado ao veterinário e não ocorra o diagnóstico e tratamento necessário, o quadro irá se agravar e resultar em uma doença articular degenerativa, também conhecida como artrose.


É importante ressaltar que cães que sofreram lesão no ligamento cruzado, independente da técnica utilizada na cirurgia ou do tratamento escolhido, irão apresentar artrose em longo prazo, entretanto, o tratamento cirúrgico visa retardar esse processo, diminuir a dor e restituir novamente a função do joelho lesionado, garantindo assim, a qualidade de vida do cão.


Tratamento


Cães que sofreram a lesão do ligamento, devem em um primeiro momento receber tratamento com anti-inflamatórios e analgésicos, nessa etapa a finalidade é reduzir a dor e a inflamação. Além disso, eles devem receber uma bandagem ou colocar uma órtese para reduzir a movimentação, e diminuir a dor. Entretanto, não deve ser um tratamento de escolha em longo prazo.

Há autores que defendem o tratamento conservador (com anti-inflamatórios, analgésicos e imobilização) para cães muito leves, associado a fisioterapia, entretanto, esse tratamento apresenta pouco resultado, uma vez que a articulação permanece instável.


O tratamento de escolha é cirúrgico, e nessa etapa, há inúmeras técnicas que podem ser realizadas. A cirurgia é imprescindível para estabilizar a articulação.


Para os meus pacientes, trabalho com duas técnicas, a técnica de interligação extracapsular fêmoro-fabelo-tibial e a TPLO (osteotomia e nivelamento do platô tibial).


A escolha da técnica para seu cão dependerá do peso, tamanho, temperamento, doenças coexistentes, estado geral de saúde, e expectativa do tutor.


Veja no vídeo abaixo como é feita uma cirurgia de TPLO (vídeo com áudio em inglês).


Pós-operatório


Depois da cirurgia do cão, é muito importante o foco na recuperação para que o ele possa ter seu tratamento bem finalizado e que não tenha o surgimento de complicações futuras.


Um dos pontos que irá resultar em uma recuperação mais rápida é a fisioterapia após quinze dias da cirurgia e o repouso de dois meses.


A fisioterapia, seja ela com hidroterapia, laserterapia ou tratamento com ondas de choque é essencial para reduzir a inflamação, fortalecer a musculatura, aumentar a amplitude do movimento do cão.


Nesse período é importante também que os tutores do cão o mantenham em uma área restrita até que ele se recupere totalmente.


Prevenção


A prevenção da doença é possível através de visitas regulares ao veterinário especializado em ortopedia veterinária, além disso, é importante que o tutor do cão se atente a sua alimentação e hábitos para que haja o controle de peso de acordo com o porte e a prática de exercícios físicos leves para que ele não fique sedentário.


Você pode acessar nosso artigo completo sobre prevenção da ruptura do ligamento cruzado cranial clicando aqui.


Conclusão


O diagnóstico rápido e o tratamento correto feito por um médico veterinário com especialização em ortopedia de pequenos animais é essencial para a saúde do seu cachorro.

O tratamento cirúrgico será essencial para estabilizar a articulação do joelho, além de evitar o surgimento precoce da artrose. A técnica de escolha depende de fatores diversos e a conversa com o veterinário será essencial para essa decisão.


Esse tratamento será necessário para que seu cão tenha qualidade de vida e retorne a rotina feliz, saudável e livre de dores.


Referências bibliográficas


FOSSUM, T.W. Cirurgia de pequenos animais, 4a ed. Elsevier, 2014


Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico veterinário (CRMV/SP 39.972) e atua na área de ortopedia e cirurgia de cães e gatos em São Paulo e cidades da região. Realiza consultas em domicílio para tutores e serviço terceirizado para clínicas e hospitais veterinários. Você pode agendar uma consulta pelo whatsapp (11)91152-4321.

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