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Vale a pena realizar fisioterapia após uma cirurgia ortopédica veterinária?

A recuperação de uma cirurgia ortopédica ou neurológica em cães e gatos não termina quando o procedimento é concluído.



Na realidade, a cirurgia representa apenas uma etapa do tratamento, sendo o período pós-operatório um dos momentos mais importantes para determinar o sucesso a longo prazo.


Nesse contexto, uma das dúvidas mais frequentes entre tutores é: fisioterapia veterinária vale a pena após cirurgia? A resposta, na maioria dos casos, é sim.


Quando corretamente indicada e conduzida por profissionais capacitados, a fisioterapia veterinária pode acelerar a recuperação funcional, reduzir a dor, minimizar complicações e melhorar significativamente a qualidade de vida do paciente.


Nos últimos anos, a reabilitação veterinária deixou de ser considerada um tratamento complementar para se tornar parte integrante do manejo pós-operatório de diversas enfermidades ortopédicas e neurológicas.


Procedimentos como TPLO para ruptura do ligamento cruzado cranial, correções de luxação de patela, cirurgias para displasia coxofemoral, fraturas ósseas, artrodeses e cirurgias de coluna frequentemente apresentam melhores resultados quando associados a um protocolo de fisioterapia individualizado.


Após uma cirurgia, é natural que o organismo responda com inflamação, edema, dor e redução temporária da mobilidade.


O repouso absoluto por períodos prolongados, apesar de necessário em determinadas fases, pode levar à perda de massa muscular, diminuição da amplitude de movimento das articulações e atraso na recuperação funcional. A fisioterapia veterinária atua justamente para minimizar esses efeitos negativos, promovendo uma recuperação mais eficiente e segura.


Um dos principais benefícios da fisioterapia veterinária no pós-operatório é o controle da dor. Técnicas como laserterapia, eletroterapia, fotobiomodulação e termoterapia auxiliam na modulação dos processos inflamatórios e reduzem o desconforto do paciente.


Quando a dor está adequadamente controlada, o animal tende a apoiar melhor o membro operado, movimentar-se com maior confiança e recuperar sua funcionalidade de forma mais rápida.


Outro aspecto extremamente importante é a preservação e recuperação da massa muscular. Muitos cães submetidos a cirurgias ortopédicas apresentam atrofia muscular significativa já antes do procedimento, especialmente nos casos crônicos.


Após a cirurgia, a redução da atividade física pode agravar ainda mais essa condição. Exercícios terapêuticos específicos ajudam a estimular a musculatura, melhorar a força e restaurar a biomecânica adequada dos movimentos.


A hidroterapia é uma das modalidades mais conhecidas dentro da fisioterapia veterinária. O uso de esteiras aquáticas permite que o paciente realize exercícios com menor impacto articular, aproveitando a flutuação proporcionada pela água para reduzir a carga sobre estruturas em recuperação. Isso é particularmente útil em cães submetidos a procedimentos ortopédicos complexos ou em pacientes obesos, nos quais o excesso de peso pode dificultar o retorno precoce à atividade física.


Nos pacientes neurológicos, os benefícios podem ser ainda mais evidentes. Cães submetidos a cirurgias para hérnia de disco, por exemplo, frequentemente apresentam déficits motores que exigem um trabalho intensivo de reabilitação.


A fisioterapia auxilia na estimulação neuromuscular, na recuperação da propriocepção e no reaprendizado dos padrões de marcha. Embora cada caso possua um prognóstico individual, diversos estudos demonstram que pacientes submetidos a protocolos de reabilitação apresentam recuperação funcional mais rápida quando comparados àqueles que recebem apenas repouso e medicação.


É importante destacar que nem todo paciente necessita do mesmo protocolo fisioterápico. A indicação deve considerar fatores como idade, porte, condição corporal, doença de base, tipo de cirurgia realizada e evolução clínica.


Um cão jovem submetido a uma correção simples de luxação de patela pode demandar um programa diferente daquele indicado para um paciente idoso com osteoartrose avançada submetido a uma artroplastia ou cirurgia de coluna.


Além da recuperação física, a fisioterapia veterinária também contribui para o bem-estar emocional dos animais. Muitos pacientes tornam-se mais ativos, confiantes e confortáveis durante o processo de reabilitação. Isso impacta diretamente sua qualidade de vida e facilita o manejo domiciliar por parte dos tutores.


Apesar de todos os benefícios, é importante compreender que a fisioterapia não substitui uma cirurgia bem executada nem corrige falhas mecânicas decorrentes de implantes inadequados, instabilidade residual ou complicações pós-operatórias. Seu papel é potencializar os resultados obtidos com o tratamento principal e favorecer uma recuperação mais completa.


Uma dúvida frequente é quando iniciar a fisioterapia após a cirurgia. A resposta varia conforme o procedimento realizado e a orientação do cirurgião responsável.


Em muitos casos, medidas fisioterápicas simples podem ser iniciadas ainda nos primeiros dias após a operação, enquanto exercícios mais intensos são introduzidos gradualmente conforme ocorre a cicatrização dos tecidos.


Do ponto de vista econômico, alguns tutores questionam se o investimento realmente vale a pena. Quando analisamos os potenciais benefícios, incluindo redução de complicações, recuperação mais rápida, menor tempo de incapacidade e melhora da função locomotora, a fisioterapia frequentemente apresenta uma excelente relação custo-benefício.


Em muitos pacientes, especialmente aqueles submetidos a cirurgias ortopédicas e neurológicas complexas, a ausência de reabilitação adequada pode resultar em limitações funcionais permanentes ou recuperação inferior ao esperado.


Portanto, a fisioterapia veterinária após cirurgia não deve ser encarada como um luxo ou um tratamento opcional em todos os casos. Ela representa uma ferramenta terapêutica baseada em evidências científicas que pode desempenhar papel fundamental na recuperação de cães e gatos.


A associação entre cirurgia, controle adequado da dor, manejo pós-operatório e fisioterapia especializada oferece as melhores condições para que o paciente retorne às suas atividades com conforto, segurança e qualidade de vida.


Referências bibliográficas


Millis DL, Levine D. Canine Rehabilitation and Physical Therapy. 3rd ed. St. Louis: Elsevier; 2024.


Zink MC, Van Dyke JB. Canine Sports Medicine and Rehabilitation. 3rd ed. Hoboken: Wiley-Blackwell; 2023.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


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