Por que meu cachorro demora para começar a andar?
- Felipe Garofallo

- 23 de jun.
- 4 min de leitura
Muitos tutores observam uma situação aparentemente simples no dia a dia, mas que pode ser um dos primeiros sinais de um problema ortopédico ou neurológico: o cachorro levanta da cama, do sofá ou do chão, permanece parado por alguns segundos e só depois começa a caminhar.

Logo, acabam se perguntando: "por que meu cachorro demora para começar a andar?" Em alguns casos, os primeiros passos parecem lentos, rígidos ou desconfortáveis. Após alguns metros, o animal volta a andar normalmente, levando a família a acreditar que não existe nada de errado.
No entanto, essa dificuldade inicial para caminhar após levantar merece atenção, principalmente quando passa a ocorrer com frequência.
A dificuldade para iniciar a marcha é um sintoma relativamente comum em cães com doenças articulares, musculares e vertebrais. Embora o envelhecimento possa contribuir para algumas alterações físicas naturais, não é correto considerar esse comportamento como uma consequência normal da idade.
Na maioria das vezes, existe uma causa clínica por trás da mudança, e o diagnóstico precoce pode fazer grande diferença na qualidade de vida do animal.
Quando um cachorro permanece deitado por um período prolongado, suas articulações ficam temporariamente mais rígidas. Em um animal saudável, essa rigidez é praticamente imperceptível e desaparece imediatamente quando ele se levanta.
Já em cães que apresentam inflamação articular, degeneração da cartilagem ou dor musculoesquelética, o repouso prolongado pode intensificar o desconforto. Como resultado, os primeiros movimentos se tornam mais difíceis e o cachorro leva alguns segundos para recuperar a fluidez da caminhada.
Uma das causas mais comuns desse comportamento é a osteoartrite, também conhecida como artrose. Trata-se de uma doença degenerativa que provoca desgaste progressivo das articulações e inflamação crônica. A artrose pode afetar quadris, joelhos, cotovelos, ombros e coluna vertebral, causando dor, rigidez e redução da mobilidade.
Muitos cães com osteoartrite apresentam exatamente o mesmo padrão: dificuldade para levantar, caminhada lenta nos primeiros minutos e melhora gradual conforme as articulações aquecem durante o movimento.
A displasia coxofemoral também está entre as causas mais frequentes de dificuldade para iniciar a caminhada. Essa doença afeta a articulação do quadril e é especialmente comum em raças como Labrador Retriever, Golden Retriever, Pastor Alemão, Rottweiler e Bernese Mountain Dog.
Em muitos pacientes, o tutor percebe que o cachorro demora para levantar, apresenta passos curtos logo após sair da cama e demonstra menor disposição para correr, brincar ou subir escadas. Com a evolução da doença, a inflamação articular leva ao desenvolvimento de osteoartrite secundária, agravando ainda mais os sintomas.
Problemas nos joelhos também podem gerar esse tipo de alteração. A ruptura do ligamento cruzado cranial é uma das principais doenças ortopédicas observadas em cães de médio e grande porte. Em alguns casos, a lesão ocorre de forma aguda e provoca claudicação intensa.
Em outros, a degeneração ligamentar acontece gradualmente, produzindo sinais mais discretos no início. O cachorro pode levantar lentamente, hesitar antes de caminhar e apresentar rigidez nos primeiros passos, principalmente após períodos de repouso.
A coluna vertebral também merece atenção quando o assunto é dificuldade para iniciar a marcha. Alterações como espondilose, doença lombossacra degenerativa e hérnias de disco podem causar dor significativa durante movimentos simples.
Muitos cães não demonstram dor constante, mas apresentam desconforto quando precisam mudar de posição, levantar ou começar a caminhar. Nesses casos, o tutor pode perceber que o animal permanece parado após ficar em pé, como se estivesse reunindo forças para dar os primeiros passos.
Além das doenças ortopédicas clássicas, alterações neurológicas podem provocar sintomas semelhantes. Problemas que afetam a medula espinhal ou os nervos periféricos podem comprometer a coordenação dos movimentos e a percepção corporal.
Alguns cães apresentam dificuldade para organizar os movimentos logo após levantar, demonstrando insegurança ou lentidão antes de iniciar a caminhada. Dependendo da causa, também podem surgir tropeços, arraste das unhas e perda de equilíbrio.
O excesso de peso representa um fator agravante extremamente importante. Cães obesos exercem maior pressão sobre articulações, ligamentos e discos intervertebrais. Essa sobrecarga acelera processos degenerativos e aumenta a intensidade dos sintomas.
Muitas vezes, a perda de peso proporciona melhora significativa na mobilidade, mesmo antes da introdução de outros tratamentos específicos.
Outro aspecto frequentemente negligenciado é a perda de massa muscular. À medida que envelhecem ou reduzem o nível de atividade física devido à dor, muitos cães desenvolvem atrofia muscular.
Como a musculatura desempenha papel fundamental na estabilização das articulações, sua redução pode tornar os movimentos mais difíceis e aumentar a sensação de rigidez após o repouso.
Os tutores devem observar atentamente alguns sinais associados. Se o cachorro demora para começar a caminhar depois que levanta e também apresenta dificuldade para subir escadas, relutância para entrar no carro, menor disposição para passeios, tremores, claudicação ou alterações no comportamento, a avaliação veterinária torna-se ainda mais importante.
Muitas doenças ortopédicas começam com sintomas discretos e evoluem progressivamente quando não são diagnosticadas precocemente.
O diagnóstico geralmente envolve exame ortopédico e neurológico detalhado, além de exames de imagem quando necessário. Radiografias costumam ser fundamentais para identificar alterações articulares, displasia coxofemoral e sinais de osteoartrite.
Em alguns casos, exames avançados como tomografia computadorizada ou ressonância magnética podem ser indicados para investigação de problemas vertebrais ou neurológicos.
Felizmente, existem diversas opções terapêuticas capazes de melhorar significativamente a qualidade de vida desses pacientes. O tratamento pode incluir controle da dor, fisioterapia, reabilitação veterinária, fortalecimento muscular, manejo do peso corporal, suplementação articular e, em situações específicas, procedimentos cirúrgicos.
Quanto mais cedo a doença for identificada, maiores costumam ser as chances de preservar a mobilidade e reduzir o desconforto.
Se o seu cachorro demora para começar a caminhar depois que levanta, não considere esse comportamento apenas uma consequência natural da idade.
Em muitos casos, esse é um dos primeiros sinais de que algo está acontecendo nas articulações, nos músculos ou na coluna vertebral. Observar essas mudanças e buscar orientação especializada precocemente pode fazer toda a diferença para que o animal mantenha uma vida ativa, confortável e saudável por muitos anos.
Referências bibliográficas
FOSSUM, Theresa Welch. Small Animal Surgery. 5. ed. St. Louis: Elsevier, 2018.
JOHNSTON, Spencer A.; TOBIAS, Karen M. Veterinary Surgery: Small Animal. 2. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.