Meu cachorro rompeu o ligamento do outro joelho: isso é comum?
- Felipe Garofallo

- 14 de jun.
- 4 min de leitura
Descobrir que o cachorro rompeu o ligamento cruzado do outro joelho após já ter passado por uma cirurgia anterior costuma ser frustrante e angustiante para muitos tutores.

Depois de enfrentar um período de dor, exames, recuperação e custos com tratamento, a sensação de estar “voltando ao começo” é bastante comum.
Uma das primeiras perguntas que surge nesse momento é: isso é normal? Infelizmente, a resposta é: sim, romper o ligamento cruzado do outro joelho é relativamente comum em cães e faz parte da evolução natural da doença em muitos pacientes.
Ao contrário do que muita gente imagina, a ruptura do ligamento cruzado cranial em cães geralmente não é apenas resultado de um trauma isolado, como um salto errado ou uma corrida intensa.
Na maioria dos casos, existe um processo degenerativo progressivo afetando ambos os joelhos ao longo do tempo. Isso significa que, quando um joelho rompe, frequentemente o outro já apresenta alterações microscópicas, inflamação ou enfraquecimento do ligamento, mesmo sem sinais clínicos evidentes naquele momento.
O ligamento cruzado cranial tem a função de estabilizar o joelho, impedindo que a tíbia deslize excessivamente para frente em relação ao fêmur. Quando ocorre a ruptura, a articulação perde estabilidade, gerando dor, inflamação, desgaste articular e progressão da artrose.
Como os fatores predisponentes geralmente afetam os dois membros posteriores, não é raro que o problema aconteça bilateralmente, ainda que em momentos diferentes.
Estudos mostram que uma porcentagem significativa dos cães que rompem o ligamento cruzado em um joelho acaba desenvolvendo ruptura no outro membro ao longo dos meses ou anos seguintes.
Dependendo da pesquisa, esse risco pode variar, mas muitos trabalhos relatam que aproximadamente 40% a 60% dos cães podem apresentar lesão contralateral em algum momento da vida. Em algumas raças predispostas, esse percentual pode ser ainda maior.
Vários fatores explicam por que isso acontece. Um dos principais é a predisposição genética. Algumas raças apresentam risco aumentado para ruptura do ligamento cruzado devido à conformação anatômica e alterações biomecânicas do joelho.
Raças como o Labrador Retriever, Golden Retriever, Rottweiler, Bulldog Francês, Bulldog Inglês e American Staffordshire Terrier frequentemente aparecem entre as mais acometidas.
Além da genética, fatores biomecânicos desempenham papel importante. Muitos cães possuem ângulos articulares e conformações ósseas que aumentam continuamente a tensão sobre os ligamentos cruzados dos dois joelhos. Isso cria uma sobrecarga constante, favorecendo degeneração gradual até ocorrer a ruptura.
Outro fator muito relevante é a sobrecarga do membro oposto após a primeira lesão. Quando um cachorro rompe o ligamento de um joelho, ele inevitavelmente passa a transferir mais peso para o outro membro posterior durante semanas ou até meses.
Mesmo após a cirurgia, o joelho não operado frequentemente trabalha mais do que o normal para compensar a limitação do lado afetado. Se esse ligamento já estava fragilizado por degeneração, a chance de ruptura aumenta ainda mais.
A obesidade também contribui significativamente. O excesso de peso aumenta a carga mecânica exercida sobre os joelhos e intensifica a inflamação articular. Muitos cães acima do peso acabam entrando em um ciclo de sobrecarga progressiva, elevando o risco tanto da primeira quanto da segunda ruptura.
Em alguns cães, os sinais do outro joelho podem começar de forma bastante sutil. O tutor pode notar episódios leves de mancar, dificuldade para levantar após descanso, redução na disposição para correr ou mudanças discretas na forma de sentar.
Em vez da clássica claudicação intensa de uma ruptura aguda, alguns pacientes apresentam sinais intermitentes por semanas antes do diagnóstico definitivo.
Uma situação relativamente comum é o tutor acreditar inicialmente que o joelho operado “voltou a piorar”, quando na verdade o problema começou no lado oposto. Isso acontece porque muitos cães alternam a distribuição de peso, tornando difícil identificar visualmente qual membro está realmente afetado. Em casos de dúvida, a avaliação ortopédica completa é essencial.
Uma pergunta frequente é se existe alguma forma de evitar a ruptura do outro joelho. Embora não exista prevenção absoluta, algumas medidas ajudam a reduzir riscos.
O controle rigoroso do peso corporal é uma das mais importantes. Manter musculatura forte por meio de fisioterapia e exercícios adequados também ajuda bastante, especialmente após a cirurgia do primeiro joelho. Além disso, avaliações ortopédicas periódicas podem identificar sinais precoces de instabilidade antes de uma ruptura completa acontecer.
Em alguns casos, o veterinário já consegue perceber sinais de degeneração no joelho oposto no momento do diagnóstico inicial, mesmo que o cachorro ainda não esteja mancando daquele lado.
Isso não significa necessariamente que a ruptura será inevitável ou imediata, mas permite monitoramento mais próximo e orientações preventivas mais assertivas.
Apesar da frustração inicial, muitos cães que passam por cirurgia nos dois joelhos conseguem recuperar excelente qualidade de vida quando tratados adequadamente. Procedimentos como TPLO frequentemente apresentam bons resultados funcionais, principalmente quando associados a fisioterapia, controle de peso e manejo pós-operatório disciplinado.
No final das contas, romper o ligamento do outro joelho após a primeira lesão é, sim, algo relativamente comum em cães. Isso acontece porque o problema geralmente envolve uma doença degenerativa bilateral, e não apenas um acidente isolado.
Embora a notícia seja difícil para muitos tutores, reconhecer os sinais precocemente e agir rapidamente costuma fazer grande diferença no prognóstico e na recuperação do animal.
Referências bibliográficas
Small Animal Surgery. Fossum, T. W. Small Animal Surgery. 4th ed. St. Louis: Mosby Elsevier, 2013.
Canine Sports Medicine and Rehabilitation. Millis, D. L.; Levine, D. Canine Sports Medicine and Rehabilitation. 2nd ed. Hoboken: Wiley-Blackwell, 2014.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.