Ligamento cruzado em cachorro: quais cães têm maior risco?
- Felipe Garofallo

- 15 de jun.
- 4 min de leitura
A ruptura do ligamento cruzado cranial é uma das doenças ortopédicas mais frequentes em cães e uma das principais causas de dor, dificuldade para caminhar e claudicação dos membros posteriores.

Embora qualquer cachorro possa desenvolver o problema, alguns cães apresentam risco significativamente maior devido a fatores como raça, porte, genética, peso corporal, conformação anatômica e até estilo de vida.
Entender quais cães têm maior predisposição para romper o ligamento cruzado ajuda os tutores a reconhecer sinais precoces, buscar diagnóstico rápido e até reduzir alguns fatores de risco.
Muitas pessoas acreditam que a ruptura do ligamento cruzado acontece apenas após um trauma, como uma corrida intensa, um salto errado ou um escorregão. Embora isso possa ocorrer, principalmente em cães jovens e muito ativos, a maior parte dos casos em medicina veterinária tem origem degenerativa.
Isso significa que o ligamento vai enfraquecendo progressivamente ao longo do tempo até romper parcial ou completamente, muitas vezes durante uma atividade aparentemente simples do dia a dia.
Entre os cães com maior risco de ruptura do ligamento cruzado estão aqueles de médio e grande porte. O peso corporal gera uma carga mecânica importante sobre os joelhos, aumentando a tensão sobre a articulação durante toda a vida.
Raças grandes costumam estar entre as mais acometidas, especialmente quando existe predisposição genética associada.
O Labrador Retriever está entre as raças mais frequentemente diagnosticadas com ruptura do ligamento cruzado. Além da predisposição genética, Labradores frequentemente apresentam tendência ao ganho de peso, fator que aumenta significativamente a sobrecarga articular.
Muitos pacientes começam com sinais discretos de dificuldade para levantar, redução da disposição para brincar ou episódios leves de mancar antes de uma ruptura mais evidente.
O Golden Retriever também aparece entre as raças de maior risco. Assim como os Labradores, apresentam predisposição ortopédica relevante e podem desenvolver degeneração ligamentar progressiva ao longo dos anos. O excesso de peso é um agravante relativamente comum nessa raça.
Outra raça frequentemente acometida é o Rottweiler. Pelo porte robusto, musculatura intensa e grande carga biomecânica sobre os joelhos, os Rottweilers apresentam risco aumentado de problemas ortopédicos, incluindo ruptura do ligamento cruzado. Em muitos casos, a lesão surge aparentemente “do nada”, mas o ligamento já vinha sofrendo desgaste progressivo.
O American Staffordshire Terrier e o Pit Bull também costumam apresentar incidência relativamente alta. São cães fortes, atléticos e musculosos, o que aumenta a demanda sobre as articulações. Apesar da aparência física robusta, alterações degenerativas ligamentares podem ocorrer silenciosamente.
Os cães braquicefálicos também merecem atenção. O Bulldog Francês e o Bulldog Inglês possuem conformação corporal característica e alterações angulares dos membros que favorecem instabilidade articular e sobrecarga do joelho. Em muitos Bulldogs, a biomecânica naturalmente alterada contribui para maior risco de doenças ortopédicas.
Raças gigantes como o Saint Bernard, Newfoundland dog e Mastiff também apresentam predisposição significativa devido ao peso corporal elevado. Quanto maior a massa suportada pela articulação, maior tende a ser o estresse sobre o ligamento cruzado.
Mesmo cães pequenos não estão totalmente livres do problema. O Yorkshire Terrier, o Shih Tzu e o Lhasa Apso podem apresentar maior risco quando possuem luxação de patela associada.
A instabilidade articular gerada pela luxação modifica a biomecânica do joelho e pode favorecer degeneração do ligamento cruzado.
Além da raça, o excesso de peso talvez seja um dos fatores de risco mais importantes e modificáveis.
Cães obesos apresentam maior pressão contínua sobre os joelhos e um ambiente inflamatório mais intenso dentro das articulações. O tecido adiposo produz substâncias inflamatórias que aceleram desgaste articular e enfraquecimento ligamentar. Em muitos casos, apenas reduzir peso já diminui significativamente o impacto sobre as articulações.
A idade também influencia. Embora cães jovens possam sofrer ruptura, especialmente após trauma, a maioria dos casos acontece em adultos e meia-idade, quando processos degenerativos do ligamento já estão em andamento. Ainda assim, cães extremamente ativos ou esportistas podem apresentar lesões precoces.
Outro detalhe importante é que cães que rompem o ligamento cruzado de um joelho possuem risco aumentado de romper o ligamento do outro lado no futuro.
Diversos estudos mostram que uma porcentagem significativa dos pacientes desenvolve ruptura bilateral ao longo do tempo, justamente porque os fatores predisponentes geralmente afetam ambos os membros.
Os primeiros sinais muitas vezes são discretos e podem incluir dificuldade para levantar, relutância para correr, episódios intermitentes de mancar, dificuldade para subir escadas ou uma forma diferente de sentar, frequentemente deslocando uma das patas lateralmente.
Quanto antes o tutor percebe essas alterações, maiores são as chances de diagnóstico precoce e tratamento adequado.
Embora não exista uma forma de prevenir totalmente a ruptura do ligamento cruzado, manter o peso ideal, estimular atividade física controlada, fortalecer musculatura e buscar avaliação ortopédica diante de qualquer claudicação ajuda bastante. Em raças predispostas, o acompanhamento precoce pode fazer diferença importante no prognóstico.
No fim das contas, cães grandes, raças predispostas, animais acima do peso e pacientes com alterações anatômicas do joelho apresentam maior risco de romper o ligamento cruzado. Reconhecer esses fatores ajuda o tutor a agir rapidamente diante dos primeiros sinais, reduzindo dor, progressão da artrose e prejuízos à qualidade de vida do animal.
Referências bibliográficas
Small Animal Surgery. Fossum, T. W. Small Animal Surgery. 4th ed. St. Louis: Mosby Elsevier, 2013.
Canine Sports Medicine and Rehabilitation. Millis, D. L.; Levine, D. Canine Sports Medicine and Rehabilitation. 2nd ed. Hoboken: Wiley-Blackwell, 2014.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.