Displasia coxofemoral em cães: por que a doença pode passar despercebida no exame clínico
- Felipe Garofallo

- 3 de fev.
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A displasia coxofemoral é uma das doenças ortopédicas mais comuns em cães, especialmente em raças de médio e grande porte, mas nem sempre é facilmente identificada durante o exame clínico de rotina.

Embora seja uma alteração estrutural da articulação do quadril, caracterizada por incongruência articular e instabilidade, seus sinais clínicos podem ser sutis, intermitentes ou até ausentes em determinados momentos da vida do animal.
Isso faz com que, em muitos casos, a doença evolua silenciosamente por meses ou anos antes de ser diagnosticada.
Um dos principais motivos pelos quais a displasia coxofemoral pode passar despercebida é a grande capacidade de compensação dos cães, sobretudo quando jovens.
Filhotes e animais jovens frequentemente apresentam frouxidão articular significativa, mas pouca dor à palpação e ausência de claudicação evidente. A musculatura ainda em desenvolvimento, aliada à alta tolerância à dor e ao comportamento naturalmente ativo, pode mascarar sinais importantes.
Mesmo testes ortopédicos clássicos, como o de Ortolani, podem ser negativos ou difíceis de interpretar, especialmente quando o animal está tenso, pouco relaxado ou apresenta boa massa muscular.
Com o passar do tempo, muitos cães desenvolvem adaptações biomecânicas que também dificultam o reconhecimento clínico da doença. Em animais adultos, o fortalecimento da musculatura glútea e da coxa pode oferecer uma estabilidade funcional parcial à articulação, reduzindo a manifestação de dor durante o exame físico.
Além disso, quando a displasia é bilateral, o padrão de marcha pode parecer apenas “estranho” ou rígido, sem uma claudicação clara, o que leva tutores a normalizarem o quadro e a não relatarem alterações importantes durante a consulta.
Outro fator relevante é o caráter flutuante dos sinais clínicos. A dor associada à displasia coxofemoral nem sempre é constante e pode variar de acordo com o nível de atividade, o peso corporal, a idade e a presença ou não de inflamação secundária e osteoartrose.
Em períodos de menor inflamação, o cão pode se apresentar confortável, ativo e sem dor evidente à manipulação, o que dificulta a suspeita clínica naquele momento específico.
Além disso, o exame clínico avalia essencialmente a função e a resposta dolorosa, enquanto a displasia é, antes de tudo, uma alteração anatômica.
É possível que a articulação esteja severamente alterada do ponto de vista estrutural, mas ainda não tenha desencadeado um processo inflamatório intenso o suficiente para gerar dor significativa. Nesses casos, apenas exames de imagem adequados conseguem revelar a real extensão do problema.
Por esse motivo, a displasia coxofemoral não deve ser excluída apenas com base em um exame clínico aparentemente normal.
Em cães de raças predispostas, animais com histórico familiar positivo, filhotes com marcha alterada, dificuldade para levantar ou intolerância ao exercício, a investigação radiográfica é fundamental, mesmo na ausência de sinais clínicos marcantes.
O diagnóstico precoce permite a adoção de estratégias terapêuticas mais eficazes, capazes de retardar a progressão da doença e melhorar significativamente a qualidade de vida do paciente.
Em resumo, a displasia coxofemoral pode sim passar despercebida no exame clínico, especialmente nas fases iniciais ou em animais bem compensados.
A associação entre uma boa anamnese, exame físico criterioso e exames de imagem corretamente indicados é essencial para evitar atrasos no diagnóstico e garantir um manejo adequado da doença.
Referências bibliográficas:
Fossum, T. W. Small Animal Surgery. 5th ed. Elsevier, 2019.
Johnston, S. A., Tobias, K. M. Veterinary Surgery: Small Animal. 2nd ed. Elsevier, 2018.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.