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Displasia coxofemoral é hereditária? Posso evitar nos filhotes?

A displasia coxofemoral é, sim, uma doença de base hereditária, mas isso não significa que o seu aparecimento seja determinado apenas pela genética. Ela resulta da interação entre predisposição genética e fatores ambientais, especialmente durante o crescimento do filhote.



Em termos práticos, isso quer dizer que um cão pode nascer com genes que favorecem a displasia, mas só desenvolver a doença clínica dependendo de como esse organismo imaturo é submetido a cargas, estímulos e nutrição ao longo dos primeiros meses de vida.

Do ponto de vista genético, a displasia coxofemoral é considerada uma doença poligênica, ou seja, não depende de um único gene, mas de vários, cada um contribuindo um pouco para a conformação da articulação do quadril.


Esses genes influenciam características como profundidade do acetábulo, formato da cabeça do fêmur, qualidade dos tecidos moles e estabilidade articular. Por isso, pais aparentemente saudáveis podem gerar filhotes displásicos, e o inverso também pode ocorrer. Essa complexidade genética explica por que a erradicação da doença é tão difícil, mesmo em programas de seleção criteriosos.


No entanto, genética não é destino. A articulação do quadril do filhote nasce imatura, predominantemente cartilaginosa, e vai se moldando conforme o animal cresce.


Se durante esse período houver excesso de peso, crescimento muito acelerado, exercícios repetitivos de impacto ou estímulos inadequados, a articulação instável tende a se deformar progressivamente. A incongruência articular leva à microinstabilidade, inflamação crônica e, com o tempo, à osteoartrose.


Por outro lado, quando o crescimento ocorre de forma mais equilibrada, a musculatura se desenvolve adequadamente e o estresse articular é controlado, muitos cães geneticamente predispostos podem nunca apresentar sinais clínicos relevantes.


É justamente nesse ponto que entra a possibilidade de prevenção ou, pelo menos, de redução significativa do risco nos filhotes. A primeira estratégia começa antes mesmo do nascimento, com a escolha responsável dos reprodutores.


Criadores sérios utilizam exames radiográficos padronizados para avaliar a qualidade do quadril dos cães destinados à reprodução, reduzindo a chance de transmitir genes desfavoráveis. Embora isso não elimine totalmente o risco, diminui bastante a incidência de casos graves.


Após o nascimento, o manejo do filhote é decisivo. A nutrição precisa ser adequada para a fase de crescimento, evitando dietas hipercalóricas ou suplementações inadequadas de cálcio e fósforo, que podem acelerar o crescimento ósseo de forma desproporcional. O objetivo não é fazer o filhote crescer rápido, mas crescer bem. Manter o peso corporal dentro do ideal é uma das medidas mais importantes e, paradoxalmente, uma das mais negligenciadas.


O tipo de exercício também faz diferença. Atividades livres, controladas e de baixo impacto ajudam no fortalecimento muscular e na estabilidade do quadril.


Em contrapartida, exercícios repetitivos, saltos constantes, escadas em excesso e pisos escorregadios durante a fase de crescimento aumentam o risco de instabilidade articular. Não se trata de impedir o filhote de se movimentar, mas de oferecer estímulos compatíveis com a maturidade do sistema musculoesquelético.


Outro ponto fundamental é o acompanhamento veterinário precoce. Avaliações ortopédicas durante o crescimento permitem identificar sinais iniciais de frouxidão articular antes mesmo do aparecimento de dor ou claudicação. Em alguns casos selecionados, intervenções preventivas podem ser consideradas quando o diagnóstico é feito muito cedo, alterando de forma significativa o prognóstico a longo prazo.


Portanto, a displasia coxofemoral é hereditária, mas não inevitável. Não é possível garantir que um filhote nunca desenvolverá a doença, especialmente se ele pertence a uma raça predisposta, mas é plenamente possível reduzir de maneira expressiva a gravidade e até impedir que ela se manifeste clinicamente.


A combinação de seleção genética responsável, manejo nutricional adequado, controle de peso, exercícios bem orientados e acompanhamento veterinário faz toda a diferença.

Referências bibliográficas

Smith GK, Paster ER, Powers MY, et al. Pathogenesis, diagnosis, and control of canine hip dysplasia. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice. 2012;42(6):1141–1160.


Kealy RD, Lawler DF, Ballam JM, et al. Effects of diet restriction on life span and age-related changes in dogs. Journal of the American Veterinary Medical Association. 2002;220(9):1315–1320.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


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